Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Nídia Zózimo, publicado no «Público» [1]


Desde há dois anos, os doentes podem escolher qual o hospital do SNS onde querem ser tratados. É uma medida popular, que parece ser do interesse da população, mas não é.

Podendo o doente recorrer a um hospital central, porque prefere ou porque supõe não haver resposta adequada no hospital mais próximo, este deixa por sua vez de receber os recursos necessários. Na finança, isto designa-se esquema em pirâmide. Em Portugal, ficou famoso, nos anos oitenta do século passado, pelo caso «Dona Branca».

Na base da pirâmide, os hospitais de proximidade são esvaziados de competências e, no topo, os hospitais centrais entram em ruptura: os doentes esperam mais, as listas aumentam e a saúde diminui, porque o fim da linha não é elástico nem tem recursos ilimitados.

Assim se explicam as situações verificadas nos hospitais centrais, que, embora vocacionados para patologias mais graves e diferenciadas, se vêem agora transformados em urgência básica, intermédia e central, centro de saúde e consulta de especialidade, tudo no mesmo espaço e com os mesmos recursos iniciais; e sem a possibilidade de devolver os doentes aos hospitais de proximidade, porque, entretanto, estes perderam valências (ou porque os doentes não querem).

O esquema da «Dona Branca» hospitalar já entrou em ruptura: basta ver os tempos de espera, as macas nos serviços de internamento, a exaustão de capacidade de resposta, o número de urgências num hospital central — que passou de menos de quinhentas por dia para perto de setecentas — e a fuga de especialistas para lugares onde conseguem programar trabalho, em vez de trabalhar para números cada vez mais impossíveis, sem meios e sem reconhecimento.

É verdade que não podemos ter um centro de transplantação ou de cirurgia cardíaca em cada hospital. Mas não precisamos. Necessitamos, isso sim, de que os hospitais de proximidade tenham meios humanos e tecnológicos para resolver a patologia para que estão vocacionados, de modo que os centrais consigam dar resposta rápida a situações complicadas ou que exigem meios que só estes possuem.

Sendo tudo isto óbvio, a situação não está a ser encarada como um problema. Tal como no esquema da «Dona Branca», estamos à espera do colapso. Não podemos permitir que seja esse o desfecho. Na «Dona Branca», tratava-se de dinheiro. Aqui, pode significar vida ou morte.