Por Fábio Morgado


Após um interregno de algumas semanas, a coluna «Ler a bola» [1] está de volta e agradeço ao leitor por se juntar a mim nesta nova temporada.

Na Quarta-feira passada, aconteceu um jogo que muitos de apelidaram de histórico: o primeiro jogo do Real Madrid na era pós-Ronaldo. Eu não o considero histórico; já muitos jogadores icónicos deixaram os seus clubes para rumarem a outras paragens. Vejo mais como um «é a vida»: a vida é feita de momentos — e este acabou.

Apesar de não sabermos exactamente o que se passou, temos algumas ligeiras impressões dos acontecimentos: ora foi porque o Ronaldo queria um ordenado ao nível do Messi e do Neymar, ora porque o Real Madrid não o defendeu em relação aos seus problemas fiscais com a justiça espanhola.

Em ambos os assuntos, percebo ambas as partes.

Vamos começar pelo Real Madrid.

O Ronaldo já era o mais bem pago do plantel e aumentar-lhe ainda mais o ordenado seria um custo demasiado pesado. Para o clube, o Ronaldo era um activo já demasiado velho, que poderia sofrer uma lesão incapacitante, ou simplesmente deixar de ter o rendimento que vinha a ter, de um momento para o outro. Basicamente, o clube olhava para o Ronaldo da mesma maneira que o leitor olha para o seu telemóvel antigo e gasto: pode avariar a qualquer momento e precisar de ser substituído. Por que haveria o clube de arriscar aumentar o ordenado?

Quanto à situação fiscal, o clube nunca veio a público defender euforicamente o jogador, porque, na verdade, estaria a defender um criminoso, que tentou desviar milhões de euros em impostos pertencentes ao reino espanhol e, por consequência, ao seu povo.

No fim de contas, Ronaldo é realmente um criminoso aos olhos da lei espanhola, mas o facto de ser uma personalidade mediática ajudou a que os tribunais fossem mais brandos e apenas pedissem o dinheiro que deveria ter sido efectivamente pago.

Agora, o lado do Cristiano Ronaldo.

É sem dúvida o melhor jogador do mundo e, para mim, o melhor da sua geração. Bateu recordes atrás de recordes e deu tudo em campo pelo Real Madrid. Pessoas menos competentes (note-se que, quando digo «menos competentes», me refiro aos objectivos não atingidos e não à capacidade de jogo per se) do que ele ganham mais? É questão de orgulho. A Juventus estava disposta a pagar o que ele queria e, então, juntou o útil ao agradável e foi ganhar o que queria num campeonato onde poderá fazer ainda mais história.

No caso da fuga ao fisco, tenho a certeza de que o Ronaldo sempre se considerou inocente, porque está longe de perceber sobre legislação fiscal e foi mal aconselhado ao contratar gente incompetente. Eu acredito que ele queria que o clube o defendesse ferozmente, o que não se passou. Penso que o Ronaldo percebe que o clube está acima dele mas era sempre bom o presidente madrileno arriscar-se por alguém que deu tudo ao emblema.

Neste momento, a situação entre Real Madrid e Ronaldo é como um relacionamento amoroso que acabou. O Ronaldo mostra-se feliz ao lado da sua nova namorada, a dizer que é a sua nova família, referindo-se ao seu novo clube e aos colegas de equipa. O Real tenta transmitir a imagem de que é uma mulher forte e independente, que não precisa de arranjar alguém que desequilibre como o português fazia; e os seus adeptos como que dizem:

— Quem é que precisa do Ronaldo? Vamos continuar a ganhar sem ele.

A verdade é que não é esse o caso e, já na Quarta-feira, o Real Madrid perdeu a supertaça europeia para o seu rival Atlético de Madrid por uns expressivos 4-2. Esta foi a primeira final internacional que o Real perdeu em dezoito anos. Nos nove anos que Cristiano esteve no Real Madrid, o clube disputou dez finais internacionais e ganhou todas; e, se bem me lembro, só numa o Ronaldo não participou, devido a lesão.

Coincidência? Parece-me que não…