Por Fábio Morgado


A nova época desportiva já começou em todos os países do Velho Continente, mas ainda está muita coisa por resolver. O mercado ainda está aberto até ao dia 31 de Agosto, excepto em Inglaterra, onde fechou a 9 de Agosto, e em Itália, onde fechou a 18. Nestes dois países, já não são efectuadas mais aquisições, até à reabertura do mercado.

Esta situação, à primeira vista, deixa os clubes ingleses e Italianos em desvantagem. O que levou ambas federações a tomarem esta decisão e o que leva os clubes a aceitá-la?

O mercado de transferências movimenta todos os anos centenas de milhões de euros — numa estimativa por baixo. Este período é uma faca de dois gumes (ou legumes, em gíria jaime-pachecoense).

Os clubes e os empresários esfregam as mãos de alegria pelos ganhos que vão obter. Por exemplo, com a transferência do Cristiano Ronaldo, que foi vendido por 117 milhões de euros, 5% deste valor, ao abrigo do mecanismo de solidariedade, tem de ir para os clubes que formaram o atleta: Manchester United, Sporting, Nacional e Andorinha. Da pesquisa que efectuei, o United recebe 2,5%, o Sporting 2,25% e o Nacional 0,25%. Para clubes pequenos ou em crise financeira, é uma lufada de ar fresco; para o Real, é extraordinário conseguir lucrar num activo de 33 anos, que é uma idade vetusta, no futebol. O leitor mais atento deve ter reparado que o Andorinha não consta na lista de clubes que recebem dinheiro pela transferência: é um clube que já não existe.

O outro lado, menos positivo, é o do clube que não quer vender o passe do jogador e este amua. Se eu quiser mudar de empresa, apenas tenho de entregar a carta de demissão com o devido tempo de antecedência. Na conjuntura actual, um trabalhador formado numa empresa gasta a essa empresa, no máximo, tempo. Ninguém vai ao centro de emprego comprar o passe dum recepcionista ou dum médico. Já no caso dum atleta, uma entidade empregadora contacta outra entidade empregadora para adquirir os serviços do seu activo e aceita pagar um valor acordado entre ambas as partes; então, o atleta diz se concorda com a mudança ou não. Uma pessoa, quando assina um contrato, parte do princípio de que o quer cumprir.

O leitor que siga com mais atenção a realidade do futebol nacional sabe do que vou falar: o F.C.Porto e o seu atleta Marega. O jogador, quando se vinculou ao FCP, sabia que não se podia despedir a não ser por justa causa, que o passe estava na posse do clube e que estava legalmente obrigado a cumprir o vínculo. Porém, surgiu uma proposta do West Ham de Inglaterra. Um melhor ordenado e a oportunidade de jogar na melhor liga do mundo — é apelativo para qualquer jogador. Mas o que o clube inglês está a oferecer pelo Marega não é apelativo para os dragões. O futebol é um negócio e o pensamento é: quanto mais dinheiro fizermos, melhor. O West Ham dava trinta milhões pelo passe do jogador. Parece muito, mas o africano tem influência na equipa e características próprias e torna-se preciso arranjar alguém que, no mínimo, tenha características similares e esperar que se adapte ao clube e ao estilo de jogo, para se tornar igualmente influente. Para arranjar um jogador assim, é precisa uma de duas coisas: ou muita sorte e encontrar um por tostões, ou investir vários milhões num jogador de qualidade. Assim de repente, os trinta milhões já são bem menos, por causa dos 5% do mecanismo de solidariedade, da comissão dos empresários, seja para a venda do Marega ou para a aquisição dum novo jogador, e da inscrição desse putativo novo jogador em todas as provas em que o Porto participa. Visto por este prisma, os trinta milhões, na realidade, são talvez quinze milhões que entram no clube — o que não deixa de ser muito dinheiro, mas, se podemos fazer mais uns trocos, por que não esticar a corda? O jogador a fazer pressão ao não aparecer aos treinos e eventos do clube só está a transmitir uma imagem de mau profissional e, no lugar do clube, eu usá-lo-ia como exemplo e castigá-lo-ia, para mostrar que os interesses do clube estão acima dos de qualquer jogador. Estas atitudes afectam as preparações dos clubes, indistintamente — Porto, Benfica, Sporting até ao Real Madrid.

Como se resolve esta situação?

Fazendo como os ingleses e italianos: fechando o mercado antes do campeonato começar. Assim, todas as birras e transferências ficam resolvidas antes de poderem distrair a equipa e os adeptos do espectáculo do futebol.

Todos os mercados europeus deveriam fechar no fim do mês de Julho, de modo que as equipas tivessem uma ou duas semanas para preparar a temporada sem medo de perder um activo influente e ter todos os elementos da equipa em dar o seu máximo, em vez de pensarem em sair para outro lado.