Por Gustavo Martins-Coelho


Uma das razões pelas quais as diversas correntes de medicinas pré-científicas [1] persistem tem que ver com a dificuldade no acesso à medicina científica, em particular dos grupos mais desfavorecidos, ou das populações rurais.

Esta realidade é particularmente gritante em África. No Quénia, por exemplo, os serviços de saúde são insuficientes para suprir as necessidades médicas da população. Em particular nas áreas rurais, muitas pessoas recorrem a produtos vegetais para resolver problemas de saúde, produtos esses que são geralmente uma salgalhada de substâncias biológicas, preparadas frequentemente por charlatães e sem qualquer segurança nas actividades de plantio, colheita, preparação e armazenamento [2].

Em África do Sul, os curandeiros tradicionais têm, em média, menos de quatro anos de escolaridade (total) e dedicam-se a tratar, entre outras coisas, convulsões, alucinações, acidentes vasculares cerebrais e toxicodependências [3]. Naturalmente, muitos destes doentes nunca chegam a ver um médico a sério…

Mas os que vêem não significa que abandonem os tratamentos alternativos. Por exemplo, na Etiópia, é frequente os doentes com VIH ou SIDA acumularem o acompanhamento hospitalar com mezinhas de gengibre ou alho — sem disso dar conhecimento ao médico [4].

Mas nem tudo é mau, neste campo. Ainda na Etiópia, por exemplo, há 124 espécies diferentes de plantas medicinais que são usadas no tratamento da malária, das quais muitas foram investigadas em laboratório, tendo-se concluído que, efectivamente, têm efeito contra o parasita que causa a malária [5]. No Congo, por exemplo, foram também identificadas 120 preparações à base de plantas com eficácia terapêutica contra a malária [6]. O estudo das restantes abre novas possibilidades no desenvolvimento de novos medicamentos contra esta doença [5, 6]. Contudo, é preciso estar também atento aos efeitos secundários e às contra-indicações, que não são poucos [7], e ainda à questão ambiental: uma das espécies de plantas mais utilizadas no tratamento da malária em África está em vias de extinção [8].

Outra planta de interesse é o Pittosporum viridiflorum. Este nome estranho é o nome científico duma planta aparentada com as magnólias, que tem revelado, através de estudos de laboratório, ter efeitos terapêuticos muito úteis. Mas, antes disso, já era usada por muitas tribos africanas para tratar os seus doentes [9].

Nem todas as intervenções por parte de curandeiros que acontecem em África são terapêuticas, contudo. Já nem vou falar da mutilação genital, porque se tornou um assunto divulgado, nas últimas décadas, mas vou referir-me à mutilação oral, que designa todas as intervenções sobre a boca, seja por dentro ou por fora. Há tribos que fazem tatuagens nas gengivas, outras que afiam os dentes incisivos, ou que arrancam os caninos. Há também tribos que enfiam pratos ou espigões no lábio inferior, o que requer também a extracção dos dois incisivos frontais — até porque, se o não fizerem, eles acabam por cair na mesma, sucumbindo ao peso que sobre eles é exercido [10].

Como falámos de muitas substâncias que se usam em África, hoje, o objecto do dia é também uma substância: a vitamina A. A deficiência de vitamina A causa cegueira nocturna e aumenta a susceptibilidade a várias doenças infecciosas, incluindo o sarampo, a malária e a diarreia. Muitas crianças morriam, antes de se descobrir a importância de comer alimentos ricos em vitamina A, tais como a hortaliça, o fígado e o peixe.

Infelizmente, este tipo de alimentos não está disponível na quantidade necessária para toda a gente. Como de costume [11], são os mais pobres dos países mais pobres os principais afectados, daí que a Organização Mundial da Saúde e a Unicef tenham começado a distribuir suplementos de vitamina A em setenta países. Uma cápsula que custa dois cêntimos, dada duas vezes por ano, salva mais de 150.000 vidas por ano e podia salvar até um milhão de crianças, se fosse dada a todos os que precisam. Esta é, segundo o Banco Mundial, uma das intervenções médicas mais eficientes, em termos da relação entre o custo e o benefício obtido.