Por Fábio Morgado


Durante muitos artigos, evitei falar do nosso campeonato, porque não me identificava com as atitudes dos seus dirigentes. Só mesmo quando se tratava de assuntos graves, como os tempos de compensação atribuídos ou as aventuras do Bruno de Carvalho, tomei a palavra.

É com muito gosto que este artigo irá falar novamente do nosso campeonato.

O primeiro dérbi da época aconteceu no Sábado passado, entre o Benfica e o Sporting, e foi uma autêntica batalha dentro de campo. Senti necessidade de referir «dentro de campo», porque, pela primeira vez em largos anos, os ânimos não foram incendiados por um líder fanático ou por um treinador que pensa que sabe fazer mind games fora de campo. Houve uma arbitragem isenta, mas, mais importante, tivemos um bom jogo, com a agressividade e a intensidade de quem quer ser campeão.

O Benfica está muito bem, mas não está a 100%: insiste num avançado que não resulta e não tem características para o tipo de jogo que a equipa apresenta, e entrou com o Rafa na ponta direita, jogador que brilhou no Braga mas parece que não aguenta a pressão e exigência de jogar num clube grande. Basicamente, o Benfica entrou com menos dois jogadores.

O Sporting tem sido um clube com descanso e queria provar que o que se passou na época passada e durante o Verão estava esquecido e que iam voltar mais fortes e confiantes. Foram uma equipa coesa a defender, muito por culpa de Salin — que nem é a primeira opção do treinador — e eficaz na frente. Na segunda parte, foram uma vez à baliza dos encarnados, conseguiram um penálti e golo.

O que mais gostei foi, após o jogo, o líder da comissão de gestão dos leões vir a público dizer que tem de haver respeito e amizade entre os clubes, mas sempre defendendo os interesses do seu clube. Para mim, isto é uma lufada de ar fresco: é um homem que está a trazer estabilidade e serenidade ao clube de Alvalade, tal como fez em 1989, quando foi nomeado, então, presidente do clube. A sua atitude é uma com que me identifico imenso: paz e amizade — é assim que uma sociedade deve estar, para poder evoluir.

Não teve medo de ir contra o fanatismo clubístico [1] e não se limitou a tentar agradar à sua audiência atacando o eterno rival — como o seu predecessor (a quem já chamei de ditador [2]) teria feito.

Nós temos muitos ditadores históricos que começaram por agradar às massas. O mais famoso será mesmo Hitler e a sua raça ariana, que era a raça perfeita e identificada com os Alemães. Mais recentemente, tivemos Hugo Chávez, que, com as fortunas que fazia a vender petróleo, deu tudo e mais alguma coisa ao seu povo. Para as pessoas com menos consciência, é muito bonito, mas a economia venezuelana só se baseava numa fonte de rendimento, o ouro negro, e os países deixaram de comprar exactamente porque o governo se tornou uma ditadura e aí começaram os problemas que conhecemos.

Quantos de nós tivemos maçadas na vida, só porque queríamos agradar aos pais, à família ou aos amigos? Todos nós. Os ditadores que mencionei anteriormente — todos eles se deram à maçada de agradar ao seu povo para se manterem no poder e, em diferentes escalas, todas as histórias acabaram em violência, morte ou destituição do seu cargo.

Espero que este clima de paz e amizade se espalhe para o Norte do país e espero honestamente que seja o Benfica o primeiro a dar o passo, não para se sentir superior, mas porque o que está a fazer neste início de época é hipócrita. Anda em choradinhos no Twitter a mostrar lances do adversário que deveriam ser para cartão vermelho — exactamente o que director de comunicação do Porto fazia no ano passado.

Digo isto para todos os clubes: menos choro e joguem mas é à bola, pá!