Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de George Packer, publicado na «The New Yorker» [1]


A crise financeira que se iniciou em 2008 matou o Lehman Brothers, causou uma espécie de nacionalização do American International Group e levou à falência de múltiplos bancos, a uma velocidade e escala comparáveis ao crash de 1929 ou ao 11 de Setembro, demonstrando que a solidez da economia americana tinha pés de barro. Mas esta crise foi o resultado de empréstimos arriscados, ganância, fraude, falta de fiscalização e desregulação ao longo de anos, estes por sua vez o resultado da crescente desigualdade e do afundamento da classe média.

Os primeiros sinais de alarme surgiram em 2006, na Florida, cujo mercado imobiliário caiu a pique, levando à descoberta que bens tangíveis e valiosos como uma casa podiam ser transformados em instrumentos financeiros espalhados pelo mundo inteiro: um crédito mal-parado na Florida podia destruir bancos no Japão.

Este crédito mal-parado chegou finalmente aos EUA e eliminou nove milhões de empregos e casas e destruiu planos de poupança reforma, atirando um grande número de cidadãos para a pobreza. A crise tornou-se visível no correio acumulado à porta de casas abandonadas, em desempregados de meia idade a jogarem computador e em reformados a tentarem ser atendidos por uma figura de carne e osso no banco.

Inicialmente, as instituições responderam adequadamente: a Reserva Federal parou a queda dos bancos, a comunicação social identificou a corrupção e a fraude e o Congresso aprovou legislação para salvar o sector financeiro, com o apoio de ambos os partidos.

Mas, então, vieram as eleições, Obama tornou-se presidente e, daí para a frente, os republicanos opuseram-se a todas as medidas propostas pelos democratas, incluindo a reforma de Wall Street, impedindo a recuperação económica e deixando a culpa nos democratas. Foi uma estratégia imoralmente brilhante e funcionou.

Obama também não se soube ajudar. Eleito como um visionário, governou como um tecnocrata e acabou por salvar os banqueiros juntamente com os bancos. Após uma crise financeira causada, em parte, por fraudes, nem um único executivo de topo de Wall Street foi levado a julgamento.

Nos anos que se seguiram à crise, o Tea Party e Occupy Wall Street foram expressões opostas da mesma raiva anti-establishment, alimentada pelo sentimento de que o escol conseguiu escapar à punição pelos crimes cometidos. A única diferença entre os dois movimentos reside nos alvos da ira: para uns, são os burocratas, os imigrantes e as minorias; para os outros, são as grandes empresas e os bancos. A ascensão do extremismo eliminou os factos do debate político e levou ao declínio da confiança nas instituições.

Entretanto, os grandes bancos retomaram as suas práticas arriscadas, a desigualdade atingiu máximos históricos e os salários estagnaram. Persistem todas as tendências do pré-crise.

Mas o efeito mais duradouro da crise é político. A presidência de Donald Trump é um acidente com mil causas, entre as quais a destruição de milhões de vidas e a injustiça. Os indicadores económicos estão fortes agora, mas, mais cedo ou mais tarde, haverá outra crise. Elas acontecem periodicamente e têm as características do seu tempo. Se a anterior foi causada pelo excesso de confiança no mercado, a próxima será causada pelos desmandos dum líder autoritário. Quando ela acontecer, estaremos menos preparados do que em 2008. Este presidente é inimigo dos factos, o Congresso é irracional e a democracia está dez anos mais doente.