Por Gustavo Martins-Coelho


Quando puxei do tema das medicinas pré-científicas [1], disse que isto não é uma questão de crença: há práticas médicas que foram testadas e comprovadas pela ciência e outras que o não foram [2]. As que foram comprovadas, há que aplicá-las aos doentes que delas necessitam. As restantes, há que testá-las cientificamente e, então, passar a usar aquelas que vierem a ser comprovadas e abandonar as que não passarem na prova da ciência.

Espero que, desde essa altura, tenha ficado claro que não nego a acupunctura [3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21], a medicina antroposófica [22], a auriculoterapia [23], a homeopatia [24, 25, 26], ou outra prática do género, por uma questão de fundamentalismo, ou de ideologia, ou por medo da concorrência. Prova disso é que me pronunciei a favor do conceito da saúde holística [27, 28], embora tenha separado o trigo do joio e alertado para o charlatanismo sob a capa de saúde holística [29]. Mesmo na última crónica, muita da minha abordagem à medicina tradicional africana foi favorável, no sentido de que temos bastante a explorar no mundo das plantas que produzem substâncias com efeitos medicinais [30].

Estou a ter esta conversa porque, frequentemente, os argumentos sobre este assunto entram com demasiada facilidade pelo domínio opinativo e até ad hominem: um médico que negue a validade das medicinas ditas alternativas é acusado de corporativismo e de ter a mente fechada; e um médico que as defenda é acusado de charlatanismo e de ter interesses ocultos. Ora, eu espero que a minha imparcialidade no tópico esteja mais do que demonstrada e que fique claro que os meus argumentos são muito simples: há coisas com confirmação científica e coisas sem essa confirmação; e é até por isso que eu acho mais apropriado chamar pré-científicas às medicinas alternativas [2].

Dito isto, hoje começo por aludir a um estudo recente [31], que demonstrou que o tai chi é mais eficaz do que o exercício aeróbico na redução dos sintomas da fibromialgia. Naturalmente, um estudo não é suficiente; vai ser preciso replicá-lo, antes de partir para a prescrição de tai chi aos doentes. Mas o princípio é este: pega-se numa prática, testa-se-a e, se passar o teste, aplica-se-a aos doentes. Se não passar — bem, esquecemos o assunto.

Posto isto, voltemos à medicina tradicional africana, pois, da última vez [30], não dissemos tudo o que havia para dizer; e comecemos com um arbusto chamado Alchornea cordifolia, que produz uma data de substâncias com interesse terapêutico. Em África, é usado para tratar quase tudo e, de facto, tem 95 compostos com diversas acções farmacológicas [32]. Vejamos o que o futuro nos reserva…

Já não vou ter é tempo de falar de mais nenhuma planta africana, para ainda poder ir ao objecto do dia. Fica para a semana!

Terminemos então, como de costume, com o objecto do dia — hoje, a bomba de água.

Tudo começou em 1864, quando o médico britânico John Snow, que sabia algumas coisas, suspeitou de que o surto de cólera que assolava Londres nessa altura estava a ser espalhado por água contaminada. Para provar a sua hipótese, ele recolheu informação hospitalar sobre se as vítimas da cólera bebiam água da bomba comunitária da Broad Street e desenhou as mortes como pontinhos num mapa da cidade. Graças a isso, descobriu que a cólera era causada por água contaminada proveniente, de facto, da tal bomba de água e, de caminho, desenvolveu um método de investigação, chamado epidemiologia, que ainda hoje é usado para estabelecer associações entre factos estatísticos e, com isso, fazer inferências do que será a causa e o efeito, não só na determinação da origem de surtos, mas em muitas outras áreas, incluindo na genética.