Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do texto publicado no «Der Spiegel» [1]


Três cidades alemãs, três crimes.

Em Friburgo, um afegão a aguardar asilo violou uma estudante universitária, deixando-a inconsciente na margem do rio, no qual acabou por morrer afogada. Marcou-se uma manifestação contra a política federal de apoio aos refugiados, mas poucos compareceram e, seis meses após o crime, o autor foi condenado a prisão perpétua, dissipando a ansiedade popular. Friburgo continuou uma cidade liberal.

Em Ofemburgo, um somaliense esfaqueou um médico, matando-o no seu consultório. O partido Alternativa para a Alemanha insurgiu-se contra a política federal de apoio aos refugiados e marcou uma manifestação, em que participaram algumas centenas de pessoas, mas uma contra-manifestação foi igualmente concorrida e, mais tarde, cerca de quatrocentas pessoas, incluindo refugiados, marcharam em honra do médico. Um familiar da vítima escreveu uma carta aberta, em que descrevia a vítima como amiga da integração. Ofemburgo recusou o aproveitamento político do crime.

Em Chemnitz, um iraquiano e um sírio são suspeitos de terem esfaqueado e morto um alemão de origem cubana. Horas após o crime, cerca de oitocentos manifestantes marcham pela cidade, agridem a polícia e ameaçam pessoas com tez de imigrante. Na noite seguinte, já são seis mil simpatizantes da extrema-direita e vêem-se saudações nazis. Em Chemnitz, os neonazis e os rufias lideram a resposta da cidade ao crime.

Três crimes, três reacções diferentes. Em todas há ira, revolta, luto, preconceito e divisão quanto à política para os refugiados. Mas, se em Friburgo e Ofemburgo as pessoas sensatas parecem estar a levar a melhor, percebendo que estes crimes são casos isolados, em Chemnitz, os «cidadãos preocupados» acusam os imigrantes indiscriminadamente e declararam-lhes guerra, num regresso a uma era que se pensava no passado. Em Chemnitz, a multidão em fúria está de volta.

O alemão racista, xenófobo e revoltado está de volta, mais uma vez, à Saxónia. Por que é sempre na Saxónia?

Bautzen, Freital, Heidenau, Clausnitz e agora Chemnitz são sinónimo de multidões em fúria a gritar vulgaridades contra os refugiados, a atacar imigrantes, a pegar fogo a abrigos. Perdeu-se a decência humano, o debate civilizado e a democracia. Estas pessoas parecem preferir um modelo nacionalista, mono-étnico, autoritário e antiliberal, ao estilo Trump e Orbán.