Por Fábio Morgado


Todos os anos, existe uma paragem no campeonato para as competições das selecções. Vejo esta altura como uma fase de pré-época para as equipas internacionais, visto que muitas selecções têm de renovar parte da sua equipa, ou porque certos atletas decidiram pôr fim à sua carreira internacional, ou porque certos jogadores não renderam o que era esperado.

Admito que me desligo um pouco nesta altura, a ponto de não ter visto o jogo amigável com a Croácia e só ter visto parte do jogo com a Itália, a contar para a nova competição europeia — a Liga das Nações [1].

Apesar de falar muito sobre futebol, também sou fã de outros desportos, apesar de não ser tão ferrenho. Gosto muito de ver um jogo da NBA [2], por exemplo, ou ténis.

Costumo dizer: onde há uma desgraça, há sempre um português envolvido, nem que seja como testemunha. Lembro-me dum ataque no Burquina Faso (alguém tenha a gentileza de me apontar tal país num mapa, se faz favor) que vitimou um português há uns anos atrás, entre muitos outros exemplos. Ora, no início deste mês, teve lugar a final do US Open [3], um dos quatro torneios do grand slam [4] do ténis — os mais prestigiados do circuito. Nesta final, aconteceu uma tragédia, uma das melhores tenistas de sempre foi vítima de racismo por parte do árbitro que — olha, calhou ser português…

Tal como escrevi no meu artigo anterior [5], Serena Williams também é uma vencedora nata; e um dos maiores defeitos dum vencedor nato é o seu mau perder. A atleta estava a defrontar uma adversária teoricamente muito mais fraca, mas estava a sentir dificuldades. Estava a ter um dia mau, como acontece a qualquer pessoa. O seu treinador, que estava na bancada e proibido pelo regulamento de dar indicações, estava a fazer exactamente isso e foi apanhado. Serena sofreu uma advertência, reagiu mal, partiu a raquete, o que é susceptível de punição e, finalmente, sofreu uma terceira punição por abuso verbal. Isto levou a que perdesse um jogo, facilitando a vida à sua adversária nipónica.

Serena afirmou que foi vítima de sexismo e que o árbitro é um ladrão.

A verdade é que o próprio treinador da Serena admitiu que estava a dar instruções para dentro do campo e a atitude do árbitro também já este a teve com estrelas do sexo masculino como Djokovic, Murray e Nadal. Por isso, não foi invenção do fiscal nem foi nenhum tipo de discriminação.

Em Portugal, na semana passada, Patrícia Mamona diz ter sido vítima de racismo [6], porque foi barrada numa discoteca, porque estava acompanhada pelos seus «black friends» — amigos negros. O trabalho do segurança é seleccionar quem entra. Como sabia Patrícia que não havia nenhuma pessoa negra no interior, para acusar a discoteca de racismo? É que, se não tinha, ainda dou o benefício da dúvida, porque é um pouco suspeito. Mas, se já tinha pessoas negras no interior, o caso, de racismo, nada tem.

É uma tentação forte vitimizar-se, quando algo não corre bem — seja um jogo ou uma saída à noite. No caso destas duas grandes atletas, em vez de aceitar a realidade e, no caso da tenista, as suas próprias falhas, optaram por se esconder atrás da sua sexualidade ou cor de pele. Isto só foi possível, porque estamos num mundo deveras sensível.

Uma situação só tem o impacto que as pessoas lhe dão. O Benfica ou o Porto, quando ganham o campeonato, só é notícia, porque os adeptos estão a fazer a festa no Marquês, ou nos Aliados. Se ninguém festejasse em público, não haveria o impacto nacional que há: celebraria o clube, porque era mais um título ganho e dinheiro a entrar.

As questões de discriminação, sejam elas quais forem, só têm impacto, porque nós lhes damos impacto, vitimizando ou aceitando a vitimização. É preciso ser mentalmente forte e não dar importância, ou dar a volta por cima.

Se realmente fosse o caso, a Serena deveria ter pensado:

— O árbitro está a prejudicar-me por ser mulher; vou então provar-lhe que sou tão boa como qualquer homem.

Ou as mulheres não querem igualdade?

A Patrícia, ao ver barrada a entrada, dava meia volta e ia a outro estabelecimento nocturno, que é coisa que não falta em Lisboa.

O meu exemplo preferido do tipo de força de que estou a falar vem de um jogador de futebol que até nem aprecio particularmente: Dani Alves. Em 2014, quando representava o Barcelona, foi bater um canto e os adeptos adversários do Villareal atiraram-lhe uma banana, insinuando que o jogador era um macaco, devido ao tom da sua pele. Este não se mostrou afectado nem reclamou: pegou na banana e comeu-a. Ou seja, não deu o poder aos adeptos adversários através de vitimização, acabou ganhando o jogo e, se não me engano, foi campeão espanhol.

Eu não vi esse jogo, mas aposto que havia, pelo menos, um português na bancada, que testemunhou o facto ao vivo e ainda hoje conta essa história aos amigos. Para mim, qualquer tipo de discriminação é uma desgraça [7] e, como já disse, onde há uma desgraça, há um português.