Por Gustavo Martins-Coelho 


Hoje, quero falar um pouco mais de medicina tradicional africana [1, 2], mas, antes disso, só fazer um pequeno parêntesis para dizer que o ministro da saúde parece ter descoberto [3], finalmente, aquilo que eu já disse em Junho passado [4]: que mudar o Infarmed para o Porto é idiota.

Dito isto, falemos de medicina tradicional africana. África é um mundo. Há imensos aspectos de interesse nas práticas tradicionais, um pouco por todo o continente. Há mais de 5400 espécies de plantas utilizadas na medicina tradicional africana, mas muito poucas foram ainda investigadas cientificamente e muito menos comercializadas [5].

Por exemplo, a tribo dos Masai, no norte da Tanzânia, faz uns chás e umas sopas com plantas medicinais, muitas das quais têm efeito antimicrobiano [6], o que pode ser útil na produção de novos antibióticos, já que os que temos caminham para a extinção [7]. Em vários outros países africanos, há um arbusto, a que os nativos chamam qualquer coisa como «ameixa amarga», que também produz substâncias com efeito antimicrobiano [8]. Outra área de interesse é a da doença do sono, onde são conhecidos nada menos do que 48 compostos existentes em plantas diferentes, que são usados pelos curandeiros tradicionais para tratar os casos que vão surgindo [9].

Por toda a África, contrariamente à intuição ocidental, muito agarrada às imagens de fome e guerra dos anos oitenta e noventa, a diabetes é hoje um importante problema de saúde. Mas o acesso aos medicamentos de que dispomos por cá é muito reduzido, devido ao seu custo, o que torna a medicina tradicional o único remédio para muita gente que precisa [10]. No Gabão, por exemplo, há 69 plantas diferentes que são usadas no tratamento da diabetes. Mas destas, que se saiba, só oito têm comprovadamente algum efeito útil [11].

No Mali, há várias plantas que são usadas para ajudar a cicatrização de feridas [12]; e há estudos sobre o efeito farmacológico e tóxico de vários compostos provenientes dessas plantas [13].

Outra planta muito usada um pouco por toda a África é a árvore-das-salsichas, da qual já se identificaram aproximadamente 150 compostos com acção anti-inflamatória, analgésica, antioxidante e até contra o cancro [14].

A principal área, em África, onde se concentra a flora com propriedades medicinais é o Sul do continente. Por exemplo, é daí que provém a galantamina, que é usada no tratamento da doença de Alzheimer. Mas a planta que lhe deu origem é venenosa [15].

O problema das plantas medicinais usadas na medicina tradicional africana é que, como não estão bem estudadas e são aplicadas aos doentes integralmente, em vez de se isolarem as substâncias úteis, são administradas aos doentes também as partes tóxicas [15, 16].

Como sucede com todas as práticas sem comprovação científica, os curandeiros africanos, às vezes, fazem mais mal do que bem; e não é só pela toxicidade das plantas medicinais. Por exemplo, na Nigéria, é hábito dar-se o útero de gado grávido a mulheres em fim de gestação, como forma de induzir o parto. O problema é que, não tão poucas vezes quanto isso, os animais têm brucelose e transmitem-na às futuras mães [18]

Outro problema da medicina tradicional africana é que o uso excessivo das plantas medicinais já colocou algumas em vias de extinção, tornando fundamental a sua síntese laboratorial, como forma de preservar a Natureza [19].

Então, para acabar, mudemos de assunto e passemos ao objecto do dia: a estação de tratamento de água. A água não tratada contém uma série de agentes patogénicos, tais como bactérias, vírus (incluindo o da hepatite A) e parasitas. No início do século XIX, o Reino Unido começou a purificar a água que as pessoas bebiam, primeiro com filtros de areia. Entretanto, passou a adicionar-se cloro e, uns cem anos mais tarde, o processo de tratamento da água começou a generalizar-se, pelo menos nos países desenvolvidos, e a febre tifóide e outras doenças transmitidas pela água praticamente desapareceram.