Por Fábio Morgado


No dia 24 de Setembro, em Londres, teve lugar a gala «The best» [1], que galardoou o melhor jogador do mundo, para a FIFA. Não venho para este espaço dizer que quem merecia era o Ronaldo, ou algo do género: como já disse num artigo anterior, o Modric era o favorito, porque, se ganhou o melhor da Europa e se é na Europa que se joga o melhor futebol, a lógica seria ele ganhar o melhor do mundo [2].

Considero o prémio bem entregue, apesar de haver inúmeros argumentos que fundamentam a opção por Ronaldo, nomeadamente ter sido mais influente que o actual melhor do mundo [3].

Antes de mais, não podemos comparar as posições. Ronaldo anda sempre no último terço do terreno e só recua para defender em lances de bola parada (e, mesmo assim, tem esta atitude mais defensiva na selecção do que propriamente no seu antigo clube). Logo, se passa mais tempo na parte defensiva adversária, é normal que tenha uma influência muito maior no poderio atacante. Já Modric é um médio centro: ele ataca e defende durante os noventa minutos do jogo.

Compararam o número de golos e assistências de ambos os jogadores e é óbvio Ronaldo levou muita vantagem, mas ninguém contou quantas intercepções cada um fez, ou quantas jogadas começaram por cada jogador. Apesar de não saber os números, aposto que muitas mais jogadas começaram dos pés do croata do que do português, tal como muitos mais intercepções foram feitas por aquele. Percebo que o importante do jogo são os golos e as assistências, mas isso não é tudo; existe muito mais por trás.

Caro leitor, acredite, preferia estar aqui a redigir um artigo a felicitar o Ronaldo por ter ganho um novo troféu, mas tal não aconteceu; e desvalorizar o feito histórico da super estrela croata só fica mal aos detractores, até porque o jogador não roubou nada a ninguém.

O que eu considerei um roubo (e muito provavelmente um acto de vingança por parte da FIFA) foi a atribuição do prémio Puskas, de melhor golo do ano.

Vamos começar pelo início. Ronaldo voltou a não estar presente em mais uma gala futebolística, mas desta vez justificou-se: devido à preparação para mais um jogo da liga italiana, via-se obrigado a recusar o convite. Como já afirmei num artigo anterior [2], preferia tê-lo visto marcar presença e dar a cara de perdedor gracioso, mas — vá, ao menos, desta vez, tem uma desculpa (quem não teve foi o Messi, que também recusou aparecer). A FIFA criticou a atitude de ambos — que era desprestigiante para o futebol. Acho uma acusação demasiado grave a dois mitos que deram a sua vida ao futebol desde muito novos. Faz lembrar aquele amigo a quem dizemos sempre que sim até um dia, em que dizemos que não, e passamos a ser uns mal-agradecidos que nunca fazemos nada por ninguém. Todos conhecemos alguém que reage assim no dia-a-dia…

Aquando da entrega do referido prémio, os três candidatos eram Salah, com um golo na liga inglesa contra o Everton, Ronaldo, com o seu famoso golo de bicicleta contra a Juventus, e Bale, com uma bicicleta na final da Liga dos Campeões, contra o Liverpool.

Quem ganhou foi o egípcio do Liverpool. Esta escolha foi motivo de chacota, a ponto do colega de equipa Milner ter felicitado Salah por ganhar o prémio pelo sétimo melhor golo da época passada!! E eu concordo: o golo contra a Roma, nas meias finais da Liga dos Campeões, foi muito melhor do que o que arrecadou o prémio. Este golo foi em Janeiro de 2018, mas o melhor tento da liga inglesa, nesse mês, nem foi o do jogador do Liverpool — o vencedor foi Defoe. Existe uma falta de coerência nas escolhas da FIFA e tanto Ronaldo como Bale mereciam o prémio.

Infelizmente, a falta de coerência não fica por aqui. O melhor guarda-redes do mundo foi Courtois, mas, no melhor onze do ano, a escolha calha sobre De Gea? Se o melhor do mundo é o Courtois, não deveria também ser a primeira escolha para o onze do ano? Afinal, ele é o melhor do mundo…

Por fim, Dani Alves eleito para o onze do ano, como defesa direito — como é possível!? No total, fez dezoito jogos na época passada — meia época, mais coisa, menos coisa — mas foi eleito o melhor!? O mundo está assim tão tristinho de defesas direitos? Até o André Almeida merece mais o prémio do que o Dani Alves!…

Este ano, estes prémios todos causaram-me uma confusão imensa e acho que a FIFA precisa de rever o método de atribuição, porque parecem uma cambada de amadores.