Por Gustavo Martins-Coelho


Vou hoje fechar o assunto «medicina tradicional africana», que nos tem ocupado ultimamente.

Como já disse neste espaço, o potencial dos extractos de plantas utilizados pela medicina tradicional africana na identificação de novos compostos com utilidade terapêutica é imenso [1].

Já dei alguns exemplos de plantas que são usadas e para quê. Acrescento a essa lista as palmeiras africanas, que são usadas em várias afecções, sobretudo infecções e alterações do aparelho digestivo [2]; as violetas, que têm actividade farmacológica antibacteriana, incluindo nas doenças sexualmente transmissíveis, e são usadas — veja-se lá! — como afrodisíaco [3]; as plantas do género Warburgia, que são também usadas para tratar infecções [4]; o aloé, que tem actividade farmacológica diversificada [5]; e as plantas do género Hypoxis, que têm tido resultados promissores em ensaios clínicos [6].

Todavia, se é verdade que há muitas plantas em África e que muitas delas se têm mostrado comprovadamente úteis, após aturada investigação científica, não é menos verdade que a frase: «o que é natural é bom» é uma falácia e que muitas destas plantas e seus extractos são usados com uma falsa sensação de segurança, mas podem realmente causar complicações sérias, quer directamente, quer devido à interacção entre si e com outros fármacos [7]. Mas disso falaremos em devido tempo.

Até porque nem só de plantas se faz a medicina tradicional africana. Aproximadamente metade dos doentes mentais, em África, só chega a um serviço de psiquiatria depois de passar por um curandeiro tradicional, ou por um xamã [8]. Isto é um problema, na medida em que os exorcismos e as rezas pouco resolvem, quando estamos perante uma pessoa com esquizofrenia, ou outro tipo de doença mental, e, enquanto perdemos tempo nisso, não estamos a tratar um doente que precisa de ajuda.

De igual forma, as queimaduras, que são frequentes em África, são também tratadas amiúde por curandeiros, sem que as suas práticas tenham qualquer comprovação científica [9]. É duvidoso que ajudem o que quer que seja na cicatrização.

Além de que arrancam dentes às crianças, sem razão para isso. Já tinha dito isto, mas não é demais lembrar…

No meio disto tudo, em África do Sul, o governo, sempre iluminado, decidiu que a medicina tradicional, apesar de ser um campo de investigação aberto e onde permanecem mais dúvidas do que certezas, é para ser ensinada na faculdade de medicina [10]. Junta-se, portanto, ao governo português, que achou uma ideia pertinente criar uma licenciatura em acupunctura. Pela enésima vez: medicina, há só uma — o conjunto de todas as práticas, ocidentais, orientais, africanas e o que mais for, que têm comprovação científica da sua eficácia. Ponto!

Vá, ponto e vírgula, porque ainda falta o objecto do dia: o leite enriquecido com vitamina D.

A ideia de enriquecer o leite com vitamina D nasceu com o objectivo de combater o raquitismo, uma doença causada pela deficiência de vitamina D e que enfraquece os ossos, principalmente das crianças pobres de zonas com pouco sol.

Do estudo inicial da vitamina D, descobriu-se que o óleo de fígado de bacalhau e o sol eram ambos formas de reforçar a ingestão desse nutriente. Só que o óleo de fígado de bacalhau sabe mal que tolhe e o sol nem sempre está disponível, pelo que ter leite com vitamina D é uma alternativa muito melhor em sabor e disponibilidade.

Mas nem só de leite vive a vitamina D. É possível aumentar a sua ingestão, consumindo ovos, salmão e atum, além, claro, de passar mais tempo ao sol, desde que tomando as devidas precauções, não vá a prevenção do raquitismo degenerar em cancro da pele…