Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Daniel Morgan, publicado no «The Washington Post» [1]


Os exames laboratoriais e imagiológicos são cada vez mais frequentes, fáceis e baratos; e são essenciais para ajudar os médicos a perceber o que se passa com os seus doentes.

Contudo, muitos médicos não os interpretam correctamente, ou sobrestimam a sua validade, em particular no caso dos falsos positivos. Ou seja, tomam-se decisões, às vezes de vida ou de morte, com base em diagnósticos incorrectos sobre o que o doente terá. Ao fazê-lo sem compreender a ciência do risco e da probabilidade, aumentamos de forma inaceitável a probabilidade de fazer a escolha errada e, em casos extremos, de colocar os doentes em risco.

O primeiro problema é que os médicos (e os doentes) não compreendem a probabilidade. Digamos que uma doença tem uma prevalência de 1/1.000, logo uma em cada mil pessoas terá a doença. Um exame que detecta essa doença tem uma proporção de falsos positivos de 5%, logo cinco em cada cem pessoas com um resultado positivo não têm realmente a doença. Se um determinado doente fizer esse exame e der positivo, qual é a probabilidade de ter realmente a doença em causa? Quase metade dos médicos responderia 95% de probabilidade [2].

Essa resposta está redondamente errada. Imagine que pegamos em mil pessoas ao acaso. Sabemos que uma delas terá, em princípio, a doença. Mas sabemos também que, se realizarmos em todas elas o nosso exame, além da pessoa doente, 5% das restantes 999 terão também um resultado positivo. Ou seja, haverá 50 testes positivos em pessoas saudáveis e um teste positivo numa pessoa doente. Portanto, a real probabilidade de ter a doença, quando o teste é positivo, é de 1/51, ou seja cerca de 2% — bastante abaixo de 95%!

Uma proporção de falsos positivos de 5% é frequente em muitos exames médicos. É o caso do principal teste laboratorial para os ataques cardíacos, por exemplo. Tendo em conta a forma pouco selectiva como este teste é administrado nos serviços de urgência, 84% dos resultados positivos são falsos [3], mas levam na mesma a mais exames, observações médicas e, às vezes, exames invasivos.

Uma mulher com uma mamografia positiva tem menos de 10% de probabilidade de ter cancro da mama; e, mesmo depois de todos os exames subsequentes, cinco em cada mil mulheres diagnosticadas com cancro da mama não o têm realmente [4]. Esta confusão tem consequências sérias: leva a tratamento desnecessário, com efeitos secundários sérios, é gerador de custos em saúde supérfluos, e causa sofrimento nas doentes.

Erros semelhantes acontecem com outros exames médicos. Nenhum exame é infalível e qualquer médico pode cometer erros. Esse não é o problema.

O problema é demasiados médicos não compreenderem a falibilidade dos exames em que se baseiam para tomar decisões. Nove em cada dez doentes admitidos num hospital recebe, pelo menos, um exame desnecessário; e quase um terço de todos os exames realizados são supérfluos [5]. Esses exames desnecessários levam a decisões terapêuticas, que têm um elevado risco de serem erradas.

Por consequência, muitos milhares de doentes são diagnosticados com doenças que não têm [6], são tratados desnecessariamente e sofrem os efeitos secundários, enquanto os seus familiares e amigos passam angústias desnecessárias. Tratar doenças inexistentes é um desperdício caro.

O uso excessivo de exames médicos tem ainda outro problema. Estima-se, por exemplo, que a tomografia computorizada usada indiscriminadamente seja causa de até 2% dos cancros que ocorrem nos EUA, devido à radiação a que sujeitam os doentes [7].

Não é surpreendente que os médicos sobrestimem a precisão e validade dos exames médicos. Por um lado, as empresas que os fabricam trabalham muito na promoção dos seus produtos. Por outro, os médicos acham que mais exames os protegem de acções legais. E, finalmente, as faculdades de medicina não ensinam adequadamente como interpretar exames médicos.

Não há uma solução simples. Um passo fundamental é os médicos reconhecerem as falhas na sua compreensão dos resultados dos exames e trabalharem para a melhorarem. As faculdades de medicina têm também de melhorar a sua prestação na formação ministrada na área da epidemiologia clínica. Os doentes têm de compreender que os seus médicos não são infalíveis. Acima de tudo, falar abertamente do assunto pode salvar vidas.