Por Gustavo Martins-Coelho


Na Europa dos séculos V, VI — até ao XV — aconteceu a Idade Média [1]. Durante este período, o conhecimento anatómico e fisiológico do corpo humano regrediu e foi substituído por concepções teológicas das doenças e dos seus tratamentos. A tradição europeia daquela época deriva dos conceitos formulados por Galeno a partir das suas observações em animais.

Porém, no Médio Oriente, o período entre os séculos IX e XII ficou conhecido como a idade de ouro da ciência árabe; e uma parte considerável desta ciência consistia na Medicina e na Farmácia [2]. Os árabes recuperaram o conhecimento e as práticas da Grécia Antiga e expandiram-nas [1].

Na História da Medicina, a medicina árabe diz respeito à ciência médica desenvolvida durante a idade de ouro árabe. Os recursos naturais e culturais árabes, bem como as suas rotas comerciais, permitiram-lhes desenvolver intensamente a sua investigação farmacêutica [2].

Com a expansão territorial árabe para a Península Ibérica e com as Cruzadas, houve um contacto maior entre o Ocidente e o Oriente, que trouxe o conhecimento árabe para a Europa [1]. Do outro lado do mundo, foram também os árabes que levaram o conhecimento grego até à Índia, onde deu origem à medicina unani [3].

Depois do colapso do regime árabe, os territórios e o património cultural árabes foram herdados pelos Otomanos [4]. O progresso científico no período turco abrandou, devido a várias circunstâncias económicas, políticas e não só desfavoráveis, mas continuou ainda assim a chegar à Europa, pela mão do Império Otomano e também dos judeus sefarditas, cuja farmacopeia tem uma grande base no conhecimento árabe.

Esta tradição científica oriental mesclou-se com a tradição europeia nos mosteiros franciscanos, onde ainda existem, na Europa de Leste, museus e bibliotecas com grandes colecções de Medicina e Farmácia árabe [4]. Esta mistura de conhecimentos contribuiu para uma importante mudança na tradição Ocidental, com a incorporação de diferentes conceitos e práticas e uma nova forma de ensino [1]. Além de incorporarem o novo conhecimento, foram também as ordens religiosas as primeiras a abrir clínicas, a escrever farmacopeias e a regular o funcionamento das instituições médicas. Os mosteiros e as mesquitas serviram também de arquivos e bibliotecas, espalhando o conhecimento médico e fomentando o seu desenvolvimento [4].

Bom, e por que estou eu a falar disto?

Porque a medicina árabe está na raiz, como se vê, da medicina ocidental moderna. Por exemplo, muitas das descrições de Avicena sobre as causas e o tratamento da enxaqueca fazem sentido à luz do conhecimento científico actual [5], tal como as suas ideias sobre alterações da urina associadas a doenças [6]. O mesmo já não é verdade, no que diz respeito à incontinência urinária, por exemplo [7]

Mas o verdadeiro problema é quando persistem, hoje em dia, práticas vindas dos tempos árabes que já não se justificam, por não terem sido validadas pelo método científico. Não é o caso da incontinência urinária, mas é o da ventosaterapia, que está agora muito na moda e tem, na verdade, várias formas e origens. Um dos tipos de ventosaterapia tem raízes árabes, embora a sua história também passe pela Grécia — e não tem utilidade demonstrada [8].

Fora deste contexto da medicina árabe como a que se desenvolveu na idade de ouro do mundo árabe, há outras práticas tradicionais que ainda hoje acontecem, tais como o uso de plantas medicinais. Uma das áreas onde as plantas medicinais são usadas é na impotência, ou simplesmente como afrodisíaco e, à semelhança do que se passava com a medicina tradicional africana [9], muitas delas não têm efeito, ou até têm o efeito contrário [10]

Resumindo, olhar para o passado é útil e instrutivo, mas permanecer no passado e ignorar o progresso até ao presente é errado.