Por Fábio Morgado 


Quando pensava que o futebol português estava a entrar numa fase de tranquilidade, sem grandes confrontos, aparece-me o suspeito do costume das picardias contra o Benfica: Fernando Madureira, conhecido por Macaco (admito que lamento ter este nome a ocupar-me espaço na memória, mas não podemos apagar informação do cérebro como se fosse um computador, por muito inúteis ou desagradáveis que sejam)…

Informo já o leitor de que não venho para este espaço [1] falar da vida pessoal do indivíduo; nem do seu mestrado com uma nota excelente que mais tarde foi revista, nem de como consegue ter um Porsche sem ter emprego (ou, precisamente, por não ter emprego). Às tantas, tem um tio que gosta muito dele, ou herdou uma fortuna e ninguém tem que ver com isso. Não falemos do que não sabemos!

Mas podemos falar do que sabemos; e o que nós sabemos é que este senhor é um rufia, que deve achar-se o comandante dum exército de guerreiros, mas, na verdade, não passa do líder dum grupo de fanáticos [2], que têm uma devoção doentia como mecanismo para preencher um vazio nas suas vidas. Há quem sinta solidão e se dedique à igreja e a aparecer na missa todos os Domingos, para preencher aquele vazio de estar só. Há quem opte por ir para a bancada da claque…

Quem souber da minha preferência clubística dirá que estou a ser um pouco parcial, atacando os portistas sem olhar ao que se passa em casa própria. Mas não é verdade; reconheço perfeitamente que este tipo de comportamento e de adepto fanático não existe só no Porto. Lembro-me de, há uns anos, estar a festejar um campeonato do Benfica e estar também lá um homem que, pela maneira de agir, pelo sotaque e pela aparência, parecia ser de família pobre e duma zona pobre da cidade. Naquele dia festivo, toda a gente, eu incluído, decidimos dar ouvidos a esse homem e unanimemente, sem votação, tornámo-lo o nosso líder e começámos a seguir os seus cantos. Lembro-me da alegria e da realização na cara dele! Arrisco mesmo dizer que o homem estava mais feliz por ter centenas de pessoas a segui-lo, do que pelo Benfica ter acabado de se sagrar campeão nacional. O Benfica encheu-lhe um vazio que não conseguia preencher no seu dia-a-dia — necessidade de atenção, ou de se sentir importante. Acredito que, nesse dia, podemos ter criado mais um fanático, na busca de mais momentos de realização como aquele.

No Sporting, existem também muitos fanáticos e, a fazer fé em muitos rumores que já ouvi, parte dos membros da claque da Juve Leo são neonazis [3]. Os neonazis são um grupo extremista, o que provavelmente explica os ataques à academia sportinguista, na época passada [4]. Só um grupo de fanáticos agiria daquela forma impiedosa. O que eles fizeram, para mim, é terrorismo: espalharam terror de uma forma consciente.

Mas isto traz-me ao tema deste artigo. No passado sábado, dia 13, deu-se uma situação deveras infeliz. Membros da claque dos Super Dragões, equipados com as cores do emblema azul-e-branco, foram visitar a loja do Benfica no Mar Shopping, em Matosinhos [5]. Nada tenho nada contra portistas irem à loja do Benfica fazer umas compras, até porque podem ter familiares benfiquistas e querer oferecer um presente. Agora, há limites. Irem equipados a rigor!? E por que não ir a uma celebração judaica vestido com o uniforme das SS?…

O objectivo foi claramente de intimidação e funcionou, porque é público e notório que o Macaco é um rufia (atenção, relembro que também existem rufias nas claques do Sporting e do Benfica; apenas não são tão famosos). Quem estava a gerir a loja teve a boa ideia de chamar a PSP para resolver esta situação delicada, em vez de — quem sabe — pedir ajuda a adeptos mais fervorosos do Benfica que pudessem estar pela zona. Se isso tivesse acontecido, tínhamos o caldo para se desencadear uma batalha que envergonharia o Benfica, o Porto e Portugal.

Agora, infelizmente, as mentes menos inteligentes das claques do Benfica hão-de formar um grupo e fazer o mesmo tipo de provocação intimidatória numa loja do Porto, porque temos sempre de pagar tudo na mesma moeda. Olho por olho, dente por dente — e este mundo é de cegos desdentados…

Estas atitudes incomodam-me profundamente. O Macaco, apesar do nome, podia dedicar-se a ser alguém produtivo para a sociedade, aproveitando as suas qualidades de liderança (porque as há-de ter, para conseguir mobilizar o resto dos Super Dragões para estas e outras diatribes). Podia ser um exemplo positivo para a juventude no desporto. Mas, nesta altura, o único exemplo em que ele pode ser usado é, num dicionário, junto ao verbete «fanático».