Por João Pedro Roncha


Não é de todo o melhor filme de Robert Redford… A história fala de quando Daryl Hannah tinha oito anos e sofreu um evento traumático. Na noite da sua festa de aniversário, houve um incêndio terrível e o seu pai, um artista famoso, foi queimado vivo, juntamente com as suas pinturas.

Nós vemos esse fogo em grande detalhe; os piromaníacos devem notar que é um dos três principais incêndios no filme.

Agora, vinte anos passaram e ela foi presa, enquanto tentava roubar uma dessas pinturas de um negociante de arte de Manhattan. Ela alega que muitas pinturas sobreviveram ao incêndio, que foi provocado como parte dum esquema de fraude de seguros. Robert Redford, como procurador-adjunto, encontra Debra Winger, no papel duma intrépida advogada de defesa que representa Daryl Hannah. A personagem de Winger acredita que Redford não vai acusar a sua cliente, se souber apurar todos os factos, e inclusive causa-lhe algum embaraço publicamente, ao irromper a certa altura e vexá-lo numa conferência de imprensa.

Neste ponto, acho que a relação entre Redford e Winger nos faz lembrar um pouco de Spencer Tracy e Katharine Hepburn, mas com certeza Spencer nunca faria o que Redford faz: dormir com uma suspeita. Hannah chega tarde ao seu apartamento, assustada e desgrenhada, e, quando tenta seduzi-lo, ele acaba sendo uma presa fácil. Infelizmente, na manhã seguinte, um dos traficantes de arte do caso aparece morto e Hannah, a principal suspeita, é encontrada na cama do procurador-adjunto. Este é um belo cenário, mas mais tarde, no filme, podemos questionar-nos por que é que Winger quer que o desacreditado Redford e a sua equipa de advogados defendam Hannah. O escândalo não teria transtornado fatalmente qualquer júri?

A tensão entre Redford e Winger — se todo o filme se tivesse sido reduzido um pouco, centrando-se apenas na história destas duas personagens, poderíamos ter algo aqui. Infelizmente, Reitman parece tentar cobrir todas as bases, combinando a história de «Perigosamente juntos» com a acção e a pirotecnia dos «Caça-fantasmas». Após os incêndios, as explosões, as cenas de perseguição, os tiroteios, as emboscadas e os cadáveres, a história humana do filme parece solitária e desamparada. Talvez houvesse algum tipo de propósito satírico em cercar as pessoas de tanta actividade. Não sei.

Acresce que Debra Winger esteve bem melhor em «Oficial e cavalheiro», com Richard Gere. Não acho que ela seja uma grande actriz (certamente, não está ao nível do grande actor que é Robert Redford), apesar de ter uma boa voz.

Os ingredientes extra tornam um filme com grande potencial num filme confuso, sobrecarregado e algo desligado da realidade, tentando aqui e ali dar ares de comédia romântica.