Por Gustavo Martins-Coelho


Hoje, para variar, e também porque muitas vezes não tenho tempo para o objecto do dia, vou começar por este mesmo.

Enquanto escrevia esta crónica, chovia lá fora. Por isso, achei apropriado contrastar o estado do tempo com o objecto do dia e, assim sendo, vamos falar do solário.

O advento dos solários, no final do século XX, permitiu aos seus utilizadores atingir aquele bronze de quem passou horas a fio no areal banhado pelo sol em qualquer altura do ano e sem sequer pôr o pé ao ar livre. Em dias de chuva, é perfeito.

Entretanto, o negócio massificou-se e hoje qualquer um pode ir a um solário low-cost. Perdeu algum do glamour.

Ora, talvez esteja na altura de tratarmos os solários como tratamos o tabaco, porque tanto uns como o outro vendem cancro e pouco mais. Se não deixamos vender tabaco às crianças; se não deixamos as tabaqueiras fazer publicidade aos seus produtos; e se as obrigamos a colocar avisos e até imagens nos maços, a alertar para os malefícios do consumo de tabaco, por que não obrigamos os solários ao mesmo nível de regulação?

Os solários são uma das causas do aumento dos cancros de pele. Não será por coincidência que o número de melanomas entre mulheres jovens e brancas tem aumentado ao ritmo de três por cento ao ano, nos últimos 25 anos…

Mas pronto, feita que está a censura do solário, podemos passar ao prato forte.

Como já saberá o leitor que me acompanha, sou feroz defensor da ciência e da medicina de base científica. Há quem lhe chame medicina baseada na evidência, mas eu não gosto desse nome: evidência é a qualidade daquilo que todos vêem e podem verificar, que se compreende desde logo [1, 2]. O que serve para demonstrar ou esclarecer um facto, uma causa ou uma verdade [1] é uma prova; usar «evidência» para dizer isto é traduzir de forma ignorante o Inglês «evidence». Como, ultimamente, os ignorantes têm mandado no mundo, eis por que existe a medicina baseada na evidência. Já eu, que gosto de me excluir do grupo dos ignorantes, prefiro chamar-lhe aquilo que ela realmente é: medicina com comprovação científica. Até porque, assim sendo, tudo o que não tem comprovação científica [3] não é alternativo, mas sim pré-científico [4].

Falemos, então, de mais uma prática pré-científica, para juntar ao ramalhete [3]: a medicina ayurvédica.

A medicina ayurvédica vem da Índia e tem mais de sete mil anos de existência. Como todas as outras práticas ancestrais que fui referindo nos últimos tempos [3], está longe de estar inequivocamente comprovada cientificamente, mas há alguns tópicos interessantes, que importa relevar.

Por exemplo, a medicina ayurvédica está certamente correcta num aspecto: a importância duma dieta variada e rica em vegetais de cores diversas: além do verde habitual, o vermelho, o laranja, etc. são cores dadas aos vegetais por nutrientes importantes, tais como os carotenos e o licopeno. Estes nutrientes podem afectar a composição do ecossistema de bactérias que habita nos nossos intestinos, o qual, por sua vez, pode afectar a nossa saúde física e mental [5]. Aliás, a tradição ayurvédica recomenda a redução do consumo de carne (talvez porque as vacas sejam sagradas, por lá) e reconhece outra coisa importantíssima: que as intervenções médicas são inúteis, se não se fizer uma alimentação adequada [6]. Não será exactamente assim, mas que uma boa alimentação ajuda, disso não há dúvidas. Como em tudo, o extremismo é mau; e há quem use a ayurveda como fundamento para o vegetarianismo, que é um tipo de alimentação desequilibrado, tal como tudo o que é extremo [7]. Mas, um dia, falaremos a sério de vegetarianismo!

Para já, termino com outro ensinamento ayurvédico, que passa pelo desprendimento alimentar, se é que lhe podemos chamar assim. O que este ensinamento, que é aplicado pelo budismo, pretende dizer é que, embora tenhamos de comer para viver, não devemos viver para comer — e é verdade. É certo que a ideia dos monges que escreveram esses livros era ensinar a ter uma atitude desapaixonada perante a comida, como forma de garantir que conseguimos atingir o nirvana [8], mas, com ou sem nirvana, não nos faria mal algum comer um pouco menos, bem pelo contrário.