Por Fábio Morgado


Esta semana de futebol não foi de feição ao Benfica. Perderam com o Ajax em Amesterdão e com o Belenenses no Estádio Nacional. Estou a escrever este artigo num Domingo de manhã, porque não quero que o resultado dos adversários me influencie. Não fui fã da escolha de Rui Vitória para liderar a equipa da Luz. Admito que lhe fui tomando gosto, mas, internamente, sempre me questionei certas coisas; na altura, não tinha era um espaço como este [1] para me exprimir.

Voltemos um pouco atrás no tempo, à altura que Jorge Jesus veio para o Benfica. O adversário mais directo foi o Sporting de Braga, antigo clube do treinador dos encarnados. A esse propósito, Jesus saiu-se com o seguinte argumento:

— A equipa está a jogar bem, porque fui eu que a organizei.

Na altura, pareceu-me uma afirmação arrogante, mas, se considerarmos o percurso do treinador arsenalista da altura, que era Domingos Paciência, este teve um ou dois anos bons no Braga, partiu para treinar o Sporting, onde foi um desastre autêntico, e, depois disso, de certa maneira, desapareceu.

Passados seis anos, Jesus partiu para o Sporting. O Benfica ressentiu-se, mas o Rui Vitória conseguiu levantar a moral. No fim do campeonato, o Benfica teve uma sorte descomunal, ganhando o jogo do título na casa do Sporting. Jesus sempre teve tendência a falhar nos jogos importantes. Na segunda época, o Benfica foi novamente campeão. Na terceira época de Vitória, o Benfica começou a derrapar: fez uma época vergonhosa na Europa e perdeu o campeonato, porque jogou à defesa com o Porto. Na quarta época de Vitória, o Benfica continua a fazer os adeptos sofrer. Joga bonito — não vou contrariar esse aspecto. Mas de que vale jogar bonito e não concretizar?

O treinador está a começar a sentir pressão dos adeptos, que exigem melhores resultados. Em vez de assumir as suas falhas, começou a disparatar com arrogância, algo que nunca apreciei em Jorge Jesus. Refiro-me à arrogância de ter dito que era o treinador com melhor rácio de vitórias na Liga dos Campeões pelo Benfica, o que, ainda por cima, não é verdade: ironicamente, o detentor desse recorde é o seu antecessor, Jorge Jesus.

A meu ver, o sucesso que Vitória teve no início da sua carreira como treinador na Luz muito se deve ao trabalho deixado por Jorge Jesus, incluindo uma mentalidade de agressividade em campo, a qual, infelizmente, com a saída de alguns jogadores da era pré-Vitória, se está a perder.

O Rui Vitória é uma aposta pessoal do presidente Vieira, pelo que, infeliz e muito provavelmente, esta situação irá abrir feridas antigas entre liderança e adeptos, que não esqueceram a venda de jovens promessas a preços de feira. Falo de jogadores como Bernardo Silva, que é o futuro da nossa selecção; Ivan Cavaleiro, que está a mostrar muita qualidade em terras de Sua Majestade; ou Renato Sanches, que — admito — foi vendido por um bom preço, mas, com um pouco mais de paciência, poderia ter saído da Luz por um valor bem superior aos 35 milhões que rendeu. Nesse mesmo ano, ganhou o Europeu, tendo sido uma das peças cruciais da equipa. Como estes três, existem alguns mais, mas isso já daria outro artigo.

Custa-me dizer isto, mas o «efeito Jesus» está a acabar e a vítima é Rui Vitória. O seu tempo está a acabar na Luz.

Na hotelaria, área em que trabalho, um director-geral nunca costuma ficar muito tempo no cargo. Ele tem objectivos para cumprir e, enquanto isso acontecer, tudo bem. Porém, se falhar, é rapidamente substituído. Com esta atitude, a equipa parece que renova forças e é mais produtiva.

Daí o termo chicotada psicológica. Seja no futebol, na hotelaria ou noutros sectores, a chicotada psicológica faz o mesmo que a chicotada física ao animal: diz-lhe para acordar para vida e se pôr a mexer.