Por Fábio Morgado


Na vida, sempre fui pessoa de uma palavra só. Quando uma pessoa dá a sua palavra, está a comprometer-se com algo, ou alguém.

No desporto, também tenho uma só palavra. Apoio o Benfica desde muito novo; disse que era o meu clube, envergo as suas cores e o emblema com orgulho e nunca mudei, por pior que as coisas estivessem (e estiveram — vários anos sem ganhar campeonatos e quase falência às mãos dum tal charlatão chamado Vale e Azevedo).

Para mim, no desporto e fora dele, esta é uma regra de ouro, pelo que abomino o oposto — quem tem duas ou mais palavras.

Como toda a gente, sinto a necessidade de me encontrar informado e actualizado, seja na política, em matérias profissionais ou actividades de lazer, como o futebol. Essa minha necessidade de informação e esclarecimento tem de ser satisfeita por terceiros, porque eu não tenho nem o tempo nem a competência para ir à procura de informação — esse é o papel do jornalista; e é por isso que compramos jornais, ou livros sobre um tema específico.

Mas, dado que isto [1] é uma coluna desportiva (e também porque, verdade seja dita, a maior parte da população prefere ler A Bola ou o Record do que ler o Expresso), vamos restringir-nos aos jornais desportivos.

Um jornal serve para informar e não para influenciar. O problema é que, muitas vezes, a influência está disfarçada de notícia. Como saber distinguir notícia de influência? Bem, o segredo frequentemente está no momento em que é publicada a informação.

Não queria falar do Benfica num tom de crítica em dois artigos seguidos, mas, face aos resultados recentes, tenho de usar o clube como exemplo. Como é do conhecimento geral, o Benfica voltou a perder pontos e, desta vez, em casa. Os adeptos estão insatisfeitos, o que é normal; até eu começarei a pedir a cabeça do treinador, se continuarmos assim. Como mencionei no artigo anterior [2], o actual treinador é aposta pessoal do presidente Vieira. Ora, dois dias após a derrota da Luz, diz o Record: «Antigo scout revela: Vieira recusou comprar Coutinho e Dembélé».

Para deixar o leitor esclarecido, ambos são actualmente jogadores extremamente talentosos do Barcelona e foram comprados a peso de ouro — na ordem das várias centenas de milhões de euros.

Custa-me vivamente acreditar que o tal scout se tenha repentinamente lembrado de ligar para o jornal em questão para contar esta história. A notícia em questão estava na gaveta há semanas ou, quem sabe, meses, à espera da altura certa. O facto do Benfica estar neste momento num período de crise foi o momento certo: o jornal está a dar aos adeptos mais razões para estarem descontentes com o clube e com a sua liderança, ajudando a desestabilizar e a pressionar quem está a trabalhar para melhorar a situação.

A notícia não tem por objectivo informar. A sua intenção é, nada mais, nada menos que influenciar. Se se tratasse realmente duma notícia com intento informativo, teria sido publicada imediatamente na altura em que o tal scout terá falado com o jornalista do Record.

Claro que estou aqui a falar do Benfica, mas podia ir buscar exemplos a outros lados. No Sporting, o jornal A Bola publicou inicialmente que já tinha sido escolhido o novo treinador dos leões; depois, já foi desmentido; e, mais tarde, já era outro o escolhido. Para os adeptos do SCP, isto enerva. Para o mundo, isto é falta de palavra.

A função dum jornal, desportivo ou não, é informar o seu público com notícias fidedignas, provenientes de fontes credíveis e atempadas. Não é guardar a informação e ir debitando quando dá mais jeito para exaltar e influenciar o público e, com isso, ganhar mais uns trocos com a «viralidade».