Por Gustavo Martins-Coelho


Que o jornalismo está de rastos, já é ponto assente [1, 2, 3, 4, 5, 6, 7]. Mas, ultimamente, o Diário de Notícias [8] tem-me chamado a atenção — pela negativa!

Quero destacar uma entrevista [9] e uma notícia [10] recentemente saídas na página do referido jornal. Começo pela entrevista [9], porque é mais antiga, e deixo a outra notícia para a semana que vem, porque não vai dar tempo para tudo.

A entrevistada é Cristina Pombo, pessoa que não conheço, mas que diz ter escrito um livro sobre homeopatia [11]; e a entrevista é a esse propósito. As perguntas da entrevistadora são de antologia…

«Escreve este livro numa altura em que várias vozes se levantam contra a homeopatia.» Adoro os jornalistas que fazem perguntas afirmativas. O que é suposto responder-se a isto? Sim, tem toda a razão, escrevo o meu livro numa altura em que várias vozes se levantam contra a homeopatia?…

«A homeopatia é uma alternativa no tratamento do cancro?», e, mais à frente, volta a insistir: «No caso do cancro é um cuidado mais paliativo?» De que estava à espera com esta pergunta? De que a entrevistada dissesse que sim. Se o fizesse, estaria a mentir [12], mas daria certamente um bom título. Assim, o título teve de ser outro. Já lá iremos… Para já, nota para a entrevistada, que não teve o desplante de dizer que a homeopatia cura cancros.

«A homeopatia não trata doenças, trata pessoas, diz no seu livro. Quer explicar?» A resposta a esta pergunta, por parte da entrevistada, consiste num conjunto de divagações que, em boa verdade, não lhe respondem efectivamente. Mas ficamos, pelo menos, a saber que a homeopatia não cura cancros, porque isso são doenças e o que ela cura são pessoas. Pessoas com cancro podem curar-se assim? Fica a dúvida no ar…

«Como explica que uma medicina com tantos anos (três séculos) e, de acordo com os dados que apresenta no seu livro, com provas dadas, não consiga reunir consenso?» Se a jornalista tivesse feito o trabalho de casa, não teria feito esta pergunta, pois o consenso existe e é de que a homeopatia não funciona [12]. A pergunta correcta seria, então: «por que afirma que a homeopatia é uma alternativa à medicina convencional, quando a ciência diz que não funciona?» Assim, deu oportunidade à entrevistada de insinuar que a homeopatia só não é aceite, porque há interesses económicos ocultos e maquiavélicos por trás. Mas deu um bom título! Aliás, a entrevistadora rejubilou e decidiu ajudar à festa, na pergunta seguinte…

«Como é que uma farmacêutica passa para a homeopatia?» Se tivesse ficado por aqui, a resposta seria algo como: «porque gosto de ganhar dinheiro e não tenho escrúpulos.» Mas a entrevistadora resolveu ajudar e indicar a resposta esperada, a ver se sacava um título ainda melhor: «Desiludiu-se com a indústria?» Ah! A indústria, esses malvados que, na Europa, dão emprego a 600.000 pessoas e investem mais de 25 mil milhões de euros em investigação anualmente [13]! Ficou o título que estava…

«Porque é que duas pessoas com a mesma queixa fazem medicamentos diferentes?» Pessoas com a mesma queixa podem fazer medicamentos homeopáticos diferentes, porque os medicamentos homeopáticos não têm qualquer efeito. Logo, dar um ou dar outro é igual!

«E como chega à melhor abordagem ou medicação para cada pessoa?» Aqui, a entrevistada perde-se na defesa do indefensável. A única situação em que dar o produto que causa a doença evita essa mesma doença é nas vacinas [14].

«A homeopatia tem um caráter preventivo?» Sim, na medida em que beber água faz bem à saúde…

«Há quem defenda que os medicamentos homeopáticos não são diferentes de bolinhas de açúcar e não têm mais do que o efeito de placebo.» Mais uma pergunta afirmativa. Sim, há quem defenda isso. Nomeadamente, qualquer pessoa que saiba de Física, de Medicina ou de Farmácia. Menos a farmacêutica Cristina Pombo.

«A autorregulação não seria um dos passos para evitar isso?» Realmente, só nos faltava uma Ordem dos Homeopatas…

E somos chegados à última pergunta. «A medicina convencional e a homeopatia não deveriam conviver e ser complementares?» Mais uma vez, não é bem uma pergunta, é mais uma sugestão, à qual a entrevistada responde positivamente. Errado! Medicina, há só uma. A homeopatia é uma prática sem fundamento científico, que deve portanto ser abandonada. Não é por chamar a um gato lebre alternativa que ele deixa de ser um gato.