Por Gustavo Martins-Coelho


Na semana passada [1], deixei pendente a crítica a uma notícia [2] que o DN deu à estampa já no final de Outubro. Em boa verdade, houve outros órgãos de comunicação social a fazer o mesmo tratamento noticioso, mas o DN, não só foi o primeiro de que me apercebi, mas também acumulou essa notícia com a entrevista que já critiquei na semana passada [1].

O título da notícia é o seguinte: «Os melhores hospitais do país? São três PPP».

José Sócrates, sempre tão criticado, deve ter sorrido, ao ler o título, já que as PPP da saúde — e as PPP em geral — foram um dos seus cavalos de batalha, enquanto primeiro-ministro. Mas não é para falar de política, nem para reabilitar a imagem do antigo primeiro-ministro, agora arguido, que puxei o assunto! É mesmo para falar da questão fulcral: os três melhores hospitais do país são efectivamente três PPP?

É aqui que, mais uma vez, o jornalismo rasteja…

A notícia é baseada nos resultados mais actuais [3] do sistema de avaliação da Entidade Reguladora da Saúde, chamado SINAS — Sistema Nacional de Avaliação em Saúde [4]. Ora, o que diz o documento síntese [5], publicado pela ERS? Textualmente, isto:

Realça-se que a metodologia utilizada no SINAS é diferente de um ranking, onde os prestadores surgiriam listados por ordem decrescente de desempenho, não sendo adequadas qualificações do tipo “melhor hospital” atribuídas individualmente aos prestadores, mas sim a consideração da integração dos prestadores em grupos de hospitais que obtiveram as melhores avaliações, em cada uma das áreas. Acresce que as classificações traduzem o desempenho apenas nas áreas concretamente avaliadas em cada prestador, não se podendo fazer extrapolações sobre o desempenho do hospital como um todo.

Repito: «não [são] adequadas qualificações do tipo “melhor hospital” [e] não se [podem] fazer extrapolações sobre o desempenho do hospital como um todo.»

O título da notícia: «melhores hospitais do país [s]ão três PPP».

Preciso de dizer mais alguma coisa?

Acho que não.

É por isso que passo directamente ao objecto do dia.

Falemos do óleo de girassol. Nos anos noventa do século XX, a preocupação com o efeito pernicioso de consumir demasiada gordura de origem animal, a qual contém muita gordura saturada, que faz mal ao coração, levou as pessoas a começar a usar outros óleos para cozinhar. O óleo de girassol tornou-se uma alternativa popular, porque contém uma elevada quantidade de gorduras insaturadas, que fazem melhor à saúde do que as saturadas.

Entretanto, investigação recente mostrou que o óleo de girassol pode ter ainda outra vantagem. Nos países de baixo rendimento, uma massagem com óleo de girassol reforça as defesas cutâneas dos bebés, reduzindo a sua propensão a apanhar infecções.

Como, hoje, ainda tenho tempo e como nem sempre isso acontece, vou aproveitar para compensar as vezes em que não falo do objecto do dia, falando também de mais um objecto: o smartphone.

Os smartphones são uma tecnologia revolucionária, que tem tido impacto na saúde pública, tanto para o bem, como para o mal. Eles distraem da condução, causaram uma epidemia de insónia e dificultam o afastamento do trabalho nos períodos de lazer. Mas também servem para lembrar os doentes de tomar a medicação, ajudam os fumadores a deixar de fumar e ajudam a vigiar a saúde e os estilos de vida. Além disso, as funções de GPS e as câmaras podem ser usadas para recolher dados de saúde.

Na verdade, os telemóveis não precisam de ser «espertos» para terem impacto na saúde pública. Por exemplo, eles permitem aos profissionais de saúde aceder a regiões remotas, onde pode não haver água corrente nem electricidade, mas onde há telemóveis. Por exemplo, na Índia, foi possível melhorar o uso de contraceptivos numa comunidade rural, através duma aplicação de planeamento familiar. Essa aplicação ajudava as mulheres casadas a compreender melhor as opções em termos de contracepção e fez com que muitas começassem a usar métodos modernos de planeamento familiar.