Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Max Fisher, publicado no «The New York Times» [1]


A eleição de Bolsonaro, admirador da ditadura [2], não é indissociável da progressão da extrema-direita nos EUA e na Europa, incluindo o anúncio do afastamento de Angela Merkel da política activa [3]. Apesar das diferenças — a ascensão de Orbán na Hungria e dos partidos populistas alemães tem que ver com o eurocepticismo e a imigração [4], enquanto a ascensão de Bolsonaro tem que ver com as epidemias de corrupção e crime que grassam na América Latina —, a ligação está nas fraquezas e tensões inerentes à democracia liberal, as quais, em tempos de pressão, a podem desgastar.

Esse desgaste leva os eleitores a regressarem aos seus instintos básicos de preservação, incluindo formas de governo mais musculadas, num padrão que se repete. A democracia resvala inevitavelmente para o autoritarismo.

Quando a democracia não funciona como esperado

A democracia é representada como o governo pelo povo, mas, na prática, as eleições e a opinião pública são apenas uma de várias instituições e normas que protegem o bem comum.

Quando as restantes instituições falham, como aconteceu no Brasil, os eleitores tentam resgatar o poder dos burocratas em prol de mais poder para o povo, elegendo personalidades que prometem desmantelar o sistema e pôr o país na ordem. Estes líderes tendem a consolidar o poder de sua feição, como fez Berlusconi em Itália: sob a égide da luta contra a corrupção, substituiu a clientela existente pela sua própria.

Desafiar o poder popular

Não é, porém, preciso que as instituições falhem, para que o sentimento anti-sistema se generalize; basta que os governos tomem medidas impopulares, como aconteceu na Europa, com a austeridade, seguida da crise dos refugiados.

As medidas tomadas foram vistas pelos governantes como essenciais para a sobrevivência a longo prazo da UE, mas levaram os eleitores a perceber que o sistema está desenhado de forma a poder ocasionalmente ignorar o que o povo quer.

Ninguém quer acreditar que os líderes desafiem a vontade popular porque uma democracia funcionante requer limites ao poder do povo; preferem acreditar que os governantes servem outros interesses ocultos, que não o interesse público. Isto cria espaço para que um político populista encontre um bode expiatório para explicar as acções dos governantes e ascenda ao poder com a promessa de restaurar a vontade popular.

A UE, que nunca construiu outra identidade que não a dos banqueiros e dos tecnocratas, é um alvo fácil; e é por isso que os partidos do sistema que a apoiam colapsaram eleitoralmente.

Na América Latina, apesar de terem sido as instituições democráticas — a justiça —, no seu funcionamento normal, a identificar e combater o problema da corrupção, o sentimento do público foi de que todo o sistema estava inquinado e era preciso destruí-lo para repor a ordem.

Nos EUA, a ascensão de Donald Trump baseou-se no pressuposto de que os líderes políticos estavam reféns de interesses económicos e que a eleição dum milionário, que não precisava de se preocupar com dinheiro, o libertava para fazer o que era realmente necessário, mesmo que extremo.

A necessidade da regra da maioria

O populismo emerge do desejo pela regra da maioria, que se afigura democrática aos membros dessa maioria. Os seres humanos são naturalmente tribais: o instinto diz para pormos o nosso grupo em primeiro lugar, contra outros grupos com os quais estamos em competição. A democracia liberal, que promete que todos ganham quando todos têm os mesmos direitos, pede-nos para suprimir aqueles instintos inatos.

Mas isto não é fácil; e torna-se ainda mais difícil em tempos de escassez ou insegurança, quando a nossa capacidade de perseguir ideais e de planeamento a longo prazo está mais enfraquecida.

Os nossos instintos podem ser explorados, sobretudo se envolverem a mobilização da maioria, já que a democracia liberal, apesar da protecção concedida às minorias, ainda favorece o exercício do poder por quem tem o maior número de votos. Na Europa e nos EUA, isto significou encorajar um sentimento subtil de que os cristão brancos estão cercados, levando-os a recear as minorias e a ver a democracia como um jogo de soma zero [5].

Impor a igualdade

Quando um grupo social sente que está a perder estatuto em relação aos outros, os seus membros tornam-se mais conscientes da sua identidade e tendem a ver os outros grupos como ameaças [6], levando a uma política de «nós contra eles», em contradição com os ideais da democracia liberal, desenhados para reduzir as desigualdades sociais.

Esta reacção foi explorada para levar os católicos, outrora o grupo dominante na Polónia, a apoiarem um partido que prometia subverter os tribunais; para levar os brancos europeus e norte-americanos a apoiar líderes que prometiam controlar os imigrantes e as minorias que ameaçavam o seu lugar especial na sociedade; e para levar a classe média brasileira a pedir policiamento mais duro nas comunidades mais pobres.

Os tribunais independentes e as protecções constitucionais da democracia liberal destinam-se a contrariar os impulsos tribais e a impor a igualdade. Mas, para as pessoas cujos impulsos estão a ser contrariados, essas instituições democráticas parecem tirânicas e a promessa populista de remover tal contrariedade parece mais liberdade, embora raramente seja o caso.

Os investigadores ainda estão a tentar perceber o que vai acontecer à democracia, cujo crescimento parou há mais duma década e parece estar a retroceder [7]. O Brasil mostra uma possibilidade: os eleitores a fazerem o país balançar entre períodos de democracia e de populismo de homens fortes pode ser o novo normal. O meio século de estabilidade democrática ocidental pode ter sido a excepção, em decorrência da Guerra Fria. Podemos vir a descobrir que, ao contrário do que pensávamos, a democracia não vai acabar por se espalhar pelo mundo inteiro [8].