Por Gustavo Martins-Coelho (com Ana João Fernandes)


Gustavo: Hoje, tenho comigo a Ana João Fernandes, que é aluna do sexto ano de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, e nos vem falar sobre alimentação saudável. Ana, tens a palavra!

Ana: Atualmente, mais de 30% das crianças portuguesas entre os sete e os nove anos de idade têm excesso de peso; e 14% têm obesidade. As crianças e os adolescentes são também o grupo que menos consome fruta e produtos hortícolas e que tem um consumo inadequado de refrigerantes e néctares.

Este tipo de alimentação inadequada pode fazer com que as crianças venham a sofrer de doenças como obesidade, diabetes, hipertensão ou dislipidemia na idade adulta, assim como de todas as complicações que estas patologias podem acarretar. Uma vez que, nestas idades, as crianças ainda não têm autonomia para decidir em que consiste a sua alimentação, é aos pais que cabe a difícil tarefa de os educar e ensinar a fazer escolhas alimentares saudáveis.

O primeiro passo começa por dar o exemplo. As crianças aprendem imitando os comportamentos dos mais velhos e com a alimentação acontece o mesmo. Se a criança estiver inserida numa família que consome vegetais e fruta regularmente, também ela o irá fazer de forma natural. No entanto, se mais ninguém da família consumir estes alimentos, a criança vai recusá-los e preferir as escolhas menos saudáveis dos familiares. Assim, adotar um estilo de vida saudável irá beneficiar toda a família, ajudando as crianças a crescer num ambiente melhor, que lhes permitirá tornar-se em adultos mais saudáveis.

Por outro lado, é importante que a alimentação respeite a roda dos alimentos, tanto no caso das crianças, como no dos adultos. Alimentos como bolos, doces, bolachas, snacks, salgados, pizas, refrigerantes, néctares ou bebidas alcoólicas não estão incluídos na roda dos alimentos, pelo que o seu consumo deve ser reduzido ao mínimo possível. Estes são alimentos com um elevado teor de açúcar ou gorduras, que, quando consumidos em excesso, vão prejudicar a saúde das crianças a longo prazo. Já alimentos como os vegetais, a fruta, leguminosas, cereais ou laticínios constituem uma grande fatia desta roda, pelo que devem ser consumidos diariamente, uma vez que têm nutrientes essenciais ao crescimento e ao desenvolvimento saudáveis de uma criança.

O elemento central da roda dos alimentos é a água, pelo que esta deve ser a bebida de eleição de toda a família, substituindo os refrigerantes, que contêm elevadas quantidades de açúcar e contribuem para o excesso de peso das crianças.

Também fazem parte da roda dos alimentos a carne, o peixe e os ovos. No entanto, existe uma tendência na população portuguesa para um maior consumo de carne, o que faz com que as crianças aprendam a rejeitar o peixe. No entanto, se o peixe fizer parte da alimentação da criança desde cedo, isto não acontecerá e a criança será um adulto mais saudável.

O consumo excessivo de sal é também um erro alimentar comum da população portuguesa e está associado a doenças como a hipertensão arterial. No entanto, tal como acontece com o peixe, se a criança for habituada desde cedo a comer alimentos com pouco sal, acabará por manter essa tendência durante a sua vida futura e tornar-se-á num adulto mais protegido de doenças cardiovasculares.

Assim, uma alimentação saudável é fundamental para o crescimento e o desenvolvimento saudáveis duma criança. Apesar dos doces ou refrigerantes agradarem ao paladar dos mais novos, estes alimentos não lhes fornecem os nutrientes essenciais ao seu desenvolvimento físico e psicológico, pelo que não lhes trazem qualquer benefício; pelo contrário, prejudicam a sua saúde.

Os hábitos alimentares inadequados são, em Portugal, o principal fator de risco para perda de anos de vida saudável. Assim, da mesma forma que é essencial oferecer formação escolar uma criança, é importante ensiná-la a ter hábitos alimentares saudáveis. Desta forma, os pais estão a oferecer aos seus filhos uma ferramenta importantíssima para que, no futuro, estes se tornem adultos mais saudáveis e livres de doença.

Gustavo: Ana, muito obrigado pela tua participação! Foi bastante esclarecedor.