Nota do editor: este artigo é um resumo de parte do texto de Kwame Anthony Appiah, publicado no «The Guardian» [1]


Michael Young, nascido em Manchester em 1915, era uma criança indesejada. O seu pai era músico e crítico e a sua mãe era pintora de vida boémia. Ambos eram distraídos, discutiam frequentemente e pouco tempo tinham para o filho. Era habitual esquecerem-se do seu aniversário e o rapaz chegou mesmo a ouvi-los ponderar dá-lo para adopção.

Mas tudo mudou quando, aos catorze anos, foi enviado para um colégio interno. Foi como se tivesse efectivamente sido adoptado, pois os proprietários, os grandes filantropos Leonard e Dorothy Elmhirst, trataram-no como um filho. De repente, Michael era um membro do escol internacional, convivendo com o presidente Roosevelt e o empresário Ford, entre outros.

O sociólogo Michael Young dedicou-se a explorar cientificamente as vidas sociais da classe operária britânica, procurando reduzir os danos causados pela condição social desses trabalhadores. A estrutura de classes sociais britânica impedia o ideal de melhoria da personalidade e das aptidões individuais que Michael Young aprendera no colégio interno. A solução para isso era, na visão do sociólogo, a meritocracia: a atribuição de poder e privilégios em função do mérito individual e não das origens sociais.

O ideal meritocrático inspira o estudo actual de como as hierarquias de riqueza e estatuto devem ser organizadas. Acreditamos que os empregos devem ir, não para quem tem ligações pessoais ou familiares, mas para os mais qualificados, excepto em casos de discriminação positiva. Assim, anulamos as velhas castas das hierarquias herdadas. Porém, Michael Young sabia que a história não é bem assim.

Michael Young contribuiu largamente para a criação do Estado social, através da definição do manifesto do Partido Trabalhista britânico que ganhou as eleições de 1945 e levou ao aumento da escolaridade obrigatória até aos quinze anos, da introdução do ensino para adultos, da melhoria da habitação social, da gratuitidade do ensino secundário, da criação do serviço nacional de saúde e da universalização da segurança social. Em resultado disso, das leis do trabalho e da acção dos sindicatos, a vida da classe operária britânica mudou radicalmente para melhor. Menos horas de trabalho e melhores salários deram lugar ao lazer e ao consumo.

Paralelamente, o topo da hierarquia também sofreu alterações parcialmente causadas pelos impostos sobre a propriedade, nomeadamente os 80% de imposto sobre propriedades com valor superior a £1 milhão (£32 milhões a preços correntes).

Durante algumas gerações, estes esforços de reforma social permitiram a ascensão social dos filhos das classes operárias. Michael Young estava consciente deste feito, mas também das suas limitações.