Por Gustavo Martins-Coelho


A essência do acto médico pode resumir-se a três pontos. Dependendo da especialidade, uns dedicam-se mais a uma ou outra coisa, mas todos seguem o mesmo processo, dividido em três passos.

O primeiro passo é a recolha de informação. O médico fala com o doente, examina-o, ausculta-o, faz exames laboratoriais, ou de imagem (radiografias e coisas que tais), e tudo isso é informação que ele recolhe e lhe permite identificar um, ou vários, problemas de saúde do seu doente.

Isto chama-se diagnóstico. O diagnóstico não é mais do que a interpretação de toda a informação recolhida a partir das diversas fontes, de modo a perceber, a partir de toda essa informação, o que está mal e elaborar uma lista de problemas de saúde.

O terceiro e último passo é a elaboração dum plano terapêutico, que permita resolver, ou pelo menos minimizar, os problemas de saúde que foram diagnosticados.

Em suma, portanto, estão aqui os três passos que presidem à acção de qualquer médico: recolher informação, interpretar essa informação para produzir um diagnóstico e elaborar um plano de tratamento para os problemas diagnosticados.

Estes três passos são geralmente aplicados a um doente individual, mas podem ser aplicados a um grupo de doentes, ou a um grupo de pessoas. Quando saímos do domínio do indivíduo e passamos ao domínio do grupo de indivíduos, da comunidade, ou da população, entramos no domínio da saúde pública.

A essência do acto médico em saúde pública assenta exactamente nos mesmos três passos: recolher informação sobre a população ou a comunidade sobre a qual nos debruçamos, identificar os problemas de saúde mais importantes nessa população e delinear um plano de intervenção tendente a resolver ou mitigar esses problemas.

Uma das estratégias com maior sucesso no domínio da saúde pública é a vacinação. Perante uma doença infecciosa que mata ou afecta muita gente — um problema de saúde pública — os médicos de saúde pública desenharam um plano de intervenção, que consiste em vacinar as pessoas saudáveis contra essa doença. Há várias doenças que cabem nesta condição e é por isso que existe um Programa Nacional de Vacinação, que engloba todas essas doenças.

O Programa Nacional de Vacinação é, portanto, um plano terapêutico feito por médicos de saúde pública para toda a população.

Mas voltemos à essência do acto médico. O plano terapêutico, o terceiro passo de que falei, é frequentemente uma prescrição médica. O doente vai ao médico e traz de lá uma receita, com um ou vários medicamentos, que vai buscar à farmácia. Pela mesma ordem de ideias, o Programa Nacional de Vacinação é também uma receita médica, só que é uma prescrição universal: em vez de cada médico ter de receitar as vacinas a cada seu doente, o Programa serve de receita a todos e todos podem ser vacinados ao abrigo dele.

Ora, às vezes, um doente automedica-se, sem falar com o médico. Vai à farmácia, ou experimenta uns chás, ou, na pior das hipóteses, mete-se em aventuras alternativas [1]… Quando é uma aspirina, ou algo do género, geralmente corre bem. Mas já vi casos em que a automedicação correu bastante mal…

Pela mesma ordem de ideias, se um indivíduo pode automedicar-se, em termos de saúde pública, como pode uma população automedicar-se? Quando os seus representantes (e quem são os seus representantes? os órgãos de soberania eleitos, nomeadamente o parlamento, ou não fosse isto uma democracia representativa!) — uma população automedica-se quando o seu parlamento decide, em nome dessa população, substituir-se aos médicos de saúde pública e incluir vacinas a seu bel-prazer no Programa Nacional de Vacinação!

Dir-me-ão: mas o Programa Nacional de Vacinação é sempre, em qualquer circunstância, aprovado pelo governo! Claro que sim! Também a receita médica é «aprovada» pelo doente, que pode decidir não comprar o que o médico receitou. Mas uma coisa é o representante eleito aceitar, em nome da população, uma prescrição médica aplicável a toda essa população; e outra, bem diferente, é ser o parlamento, ou qualquer outro órgão de soberania, a fazer essa prescrição. A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!