Por Fábio Morgado


O ser humano é competitivo por natureza. Os comuns mortais, na falta de conseguirem fazer o que os grandes atletas fazem, apoiam os clubes a que estes pertencem. No futebol, o trabalho do adepto é motivar os jogadores, para que estes se mantenham competitivos ao longo dos noventa minutos (ou mais), dando-lhes algo por que lutar — o próprio adepto.

Quando o atleta ganha uma competição, sente-se realizado profissionalmente e, claro, também é remunerado de acordo com o feito. Ganhar a Liga dos Campeões é muito mais importante do que ganhar a Taça da Liga, da qual vou falar hoje.

Esta semana, realizaram-se vários jogos da primeira ronda desta competição, que é, não esqueçamos, a terceira maior competição do futebol sénior em Portugal (sendo a primeira o campeonato e a segunda a Taça de Portugal). Este troféu, na minha opinião, é para salvar a época dum clube grande — ao menos, ganhámos algo. Para um clube que não está habituado a ganhar troféus, já é motivo de festa, mas apenas porque não está habituado a ganhar troféus. É como ir ao cinema ver o mesmo filme várias vezes: da primeira, perfeito; da segunda, interessante; da terceira, agradável; da quarta vez, não digo que não, mas passava bem sem ele. Quero com isto dizer que há um desgaste; mas porquê este desgaste nesta prova e não na Taça de Portugal ou no campeonato?

Porque a prova não dá prémio algum, sem ser o «caneco» e o título de vencedor. Quando a prova foi introduzida em 2007, achei uma boa ideia, desde que o vencedor tivesse algum benefício além dum troféu para exibir na prateleira, como, por exemplo, um lugar na eliminatória de acesso à Liga Europa, como a Taça de Portugal tem. Doutra forma, a competição seria encarada como apenas mais uma série de jogos.

Os jogos da Taça da Liga são aproveitados para dar minutos a jogadores menos utilizados. Os jogadores de banco dos três grandes são tão bons ou melhores que os titulares das equipas médias ou pequenas. Dar uma importância maior à Taça da Liga, com a atribuição dum lugar europeu, além de incentivar um pouco mais os clubes grandes, tem o principal efeito de incentivar os clubes pequenos, permitindo-lhes, através desta competição, aspirar a alcançar a glória europeia.

Assim, como ela está, confesso que nem me dei ao trabalho de procurar os resultados da primeira jornada. Não há interesse algum da minha parte, não mantém as equipas competitivas, limita-se a criar situações de desconforto, devido a eventuais lesões.

O Benfica jogou contra o Paços de Ferreira. Calhou que o clube da Luz ganhou, mas imaginemos que tivesse perdido. Os encarnados, nas últimas semanas, estiveram muito aflitos, com a goleada sofrida contra o Bayern e o jogo muito triste da Taça de Portugal, contra o Estoril, que foi ganho mesmo à rasquinha. Uma derrota contra o Paços iria deixar os adeptos chateados, esquecendo a goleada deste fim de semana contra o Feirense. Iria deixar o pessoal técnico, os jogadores e os dirigentes — enfim, a nação benfiquista — novamente em alvoroço. Ou seja, a competição não tem efeitos particularmente positivos, mas pode tê-los bastantes negativos.

A Federação não quer voltar atrás com este torneio, porque, ao eliminá-lo, estaria a dar a mão à palmatória e a reconhecer que foi um erro — e ninguém gosta disso. Por isso, os clubes terão de continuar a participar nestes jogos sem importância, em que rodam jogadores menos influentes, e os adeptos mais fervorosos irão investir o seu tempo e dinheiro. Quando a mim, tenho coisas mais interessantes para fazer, que me fazem esquecer a taça menos importante de Portugal.