Por Gustavo Martins-Coelho


Na semana passada [1], como deve estar lembrado o leitor, expliquei por que razão o parlamento não tem o direito a fazer prescrições médicas; isto a propósito da inclusão, no Programa Nacional de Vacinação, das vacinas contra a meningite e a gastroenterite por rotavírus, bem como do alargamento da vacina contra o vírus do papiloma humano aos homens.

Hoje, vou voltar ao assunto, porque há uma pequena coisa que ficou por dizer. Na verdade, trata-se de responder ao principal argumento invocado pelos proponentes: que isto é uma questão de igualdade no acesso à vacinação, independentemente da capacidade económica de cada um [2].

Esta justificação é, simplesmente, ridícula: se a motivação do PCP e do Bloco de Esquerda é somente garantir que ninguém fica sem vacina, por não ter capacidade de a pagar, a solução não é substituir-se aos médicos de saúde pública que avaliam a pertinência da inclusão de cada vacina no PNV; a solução é alterar o nível de comparticipação das vacinas que são prescritas pelos pediatras. Actualmente, o grau de comparticipação é zero, ou seja, quem compra a vacina paga a totalidade do preço de venda. Se o parlamento quer que todos possam ter acesso, que aumente a comparticipação para 100 %, passando o Estado a pagar a totalidade do preço das vacinas, ou para um valor de comparticipação intermédio, se assim achar por bem. Agora, pare o parlamento de se armar em médico, porque raros são os que lá estão que podem arvorar esse título!

E digo mais: pergunto por que razão têm os nossos impostos de suportar uma despesa de quase dez milhões de euros, para vacinar contra uma doença que mata menos de quarenta crianças por ano em Portugal (estou a falar do rotavírus)… Não temos outras coisas melhores, em que gastar o dinheiro?

Dito isto, está na hora de falar do objecto do dia, que hoje vão ser os sapatos. Em muitas partes do mundo, os sapatos deixaram ser um objecto útil, para passarem a ser um objecto da moda. Mas, apesar disso, os sapatos têm primordial importância como protecção contra doenças, lesões e os elementos naturais. Sem sapatos, por exemplo, as pessoas correm o risco de contraírem doenças causadas por vermes que conseguem entrar pela planta dos pés e infectar os intestinos. Não é uma doença que exista na Europa, mas, noutras partes do mundo, tais como em África, na Índia e na América do Sul, ainda acontece.

No início do século XX, o empresário norte-americano John Rockefeller liderou uma campanha de saúde pública para eliminar esta doença no Sul dos Estados Unidos, através da distribuição de tratamentos gratuitos e da educação das pessoas para a importância de usarem sapatos. Esta campanha foi essencial para aumentar a consciência do perigo e para quase erradicar a doença nessa região.

Ficou a faltar, contudo, uma intervenção mais global. Este tipo de infecções ainda é um desafio que persiste nos países em desenvolvimento. Estima-se que cerca de trezentos milhões de pessoas, no mundo, não tenham dinheiro para sapatos, ficando em risco.