Por Fábio Morgado


No ano passado, por esta altura, escrevi uma espécie de conto de Natal adaptado aos clubes portugueses [1]. Não é que, quase a celebrar um ano da publicação desse artigo, aparece a versão futebolística de Ebenezer Scrooge, a personagem principal do conto original de Charles Dickens?!

Segundo relata o «The Sun», um pasquim britânico que faz o nosso «Correio da Manhã» parecer um jornal sério, o treinador português José Mourinho quer marcar um treino na tarde do dia 25 e entrar imediatamente em estágio para o jogo do dia seguinte, o famoso boxing day. Este é um dos quatro feriados anuais em Inglaterra e, neste dia, todas as equipas da Premier League jogam, enquanto os estádios se enchem de famílias.

Eu entendo que os futebolistas são profissionais pagos a peso de ouro, mas são pessoas como as outras; como as outras, têm família; e, como as outras, gostam de passar o Natal com os seus. Por que não manter o treino da parte da manhã de dia 26, como Sir Alex Fergusson e outros faziam antes de Mourinho chegar ao clube (sim, já o ano passado o treinador português tentou fazer o mesmo)?

Mourinho é um grande treinador, mas parou no tempo. Já não sabe se relacionar com os jogadores de hoje em dia, com os quais é preciso adaptar mais do que no passado.

Ainda na semana passada, estava a rever uma das minhas séries preferidas — «Friends» — e notei que muitas das situações que aconteciam na série seriam facilmente resolvidas com as tecnologias de hoje em dia.

Esta série, sendo das melhores de sempre no género da comédia, foi naturalmente imitada por imensas outras, algumas das quais tiveram sucesso notável. Um exemplo disso é a série «Foi assim que aconteceu». Mas os novos produtores foram suficientemente inteligentes para criarem situações de comédia novas, envolvendo as novas tecnologias.

Mourinho vem duma geração em que não havia uma estrela maior; ninguém estava acima do grupo de trabalho e muito menos do treinador. Lembro-me de que, quando foi para o Chelsea, no que já parece o longínquo ano de 2004, contratou jogadores desconhecidos a nível europeu, como Petr Chech, Didier Drogba e Ricardo Carvalho, entre outros, e a história que se seguiu é conhecida: chegou, viu e venceu. Estes jogadores tornaram-se dos melhores nas suas posições porque tinham o que se chama fome de vencer e se deixaram guiar por um vencedor nato.

Mas, na minha opinião, José Mourinho é um treinador para apenas duas épocas no mesmo clube, porque puxa demasiado pelos jogadores e faz desgastar a relação. Na sua passagem pelo Inter de Milão, apanhou um grupo de jogadores iguais e conseguiu novamente sucesso europeu e vários títulos de campeão italiano.

Já na sua passagem pelo Real de Madrid, a situação não foi famosa, visto que era uma equipa de estrelas (entre elas, Cristiano Ronaldo). A principal vítima de Mourinho foi Casillas, que era, nem mais, nem menos, o titular absoluto e capitão dos blancos. Jogadores que estão habituados a ganhar são completamente diferentes de jogadores que querem ganhar. Por esta altura, já tinha passado quase uma década desde que saíra de Portugal para ir para o Reino Unido e o futebol já tinha mudado.

Quando saiu do Real, voltou para o Chelsea, mas encontrou um clube diferente. Ainda restavam alguns jogadores a quem ajudou a chegar ao estrelato, mas já eram velhos, em termos futebolísticos, e o clube tinha já, não uma nova equipa, mas novas estrelas, como, por exemplo, Hazard e Fabregas. O clube ainda teve algum sucesso, mas não o esperado, e o treinador foi despedido.

O seu mais recente clube é o Manchester United. Eu acho que foi uma contratação de pânico, porque os seus eternos rivais — o outro clube de Manchester, o City — haviam contratado Guardiola. Na cabeça dos dirigentes reds, contrataram o único homem que conseguiu parar o barcelona de Guardiola.

Quando Mourinho chegou, encontrou uma equipa velha. Tentou implementar as suas ideias, mas não se ensinam novos truques a cães velhos. Quando foram pedidos novos jogadores, as pessoas responsáveis foram buscar a estrela Pogba, nem que fosse para fazer dinheiro com publicidade.

Foi comprado por cem milhões — uma autêntica super-estrela, que pensa que está acima do treinador.

Neste momento existe uma colisão de egos no balneário dos diabos vermelhos e Mourinho está a perder. Não consegue relacionar-se com a juventude e, para demonstrar que é ele quem manda, toma decisões que, na realidade, só prejudicam a si mesmo.

É preciso haver uma limpeza no balneário. Agora, cabe à direcção escolher se a equipa técnica ou os jogadores.