Por Fábio Morgado


O Benfica parece ter retomado o rumo das vitórias, com seis seguidas e todas elas por 1-0. Uma vitória é uma vitória, mas preocupa-me a mais recente, contra o Montalegre, para a taça de Portugal: é uma equipa da série A portuguesa! Equivale à 4.ª divisão!!!

Não querendo tirar o mérito a esta equipa de amadores, que deram tudo em campo e demonstraram que o amor ao clube e o orgulho em envergar a camisola podem fazer frente e, por vezes, superar o dinheiro, parece que os jogadores encarnados perderam o amor pelo clube — e tenho uma teoria quanto a isso.

Tudo começou na pré-época, quando o Benfica decidiu contratar, a custo zero, um avançado que jogava na Ucrânia, de nome Facundo Ferreyra. Para o clube o convencer a se juntar às fileiras, ofereceram um ordenado chorudo, de cinco milhões por época, o que dá à volta de 384 mil euros por mês. Isto tornou-o o jogador com o salário mais alto do plantel.

A partir daqui, começou o desagrado: um jogador que não é famoso, que não tem créditos firmados a nível mundial, aparece do nada e ganha mais do que toda a gente!? Se o leitor tivesse um colega novo, acabado de vir doutra empresa, ganhar o dobro que o leitor, que trabalhou arduamente para cumprir objectivos, também o leitor se sentiria injustiçado. Foi provavelmente assim que o plantel se sentiu.

O atleta que mais falou neste assunto foi Jonas — sem dúvida, a estrela da equipa e que quase saiu para as Arábias, só tendo ficado porque a direcção do clube igualou o ordenado, fazendo-o assim sentir-se valorizado. Agora a questão é: e o resto do plantel que tem de renovar contratos? É aí que se dá o estranho caso de Salvio. Após um início de época fulgurante, em que o atleta estava mostrar-se uma das peças principais do ataque benfiquista, de repente desapareceu, após uma ligeira lesão, e mais não voltou. Por coincidência, nessa altura, houve vários avanços e recuos quanto à renovação do jogador argentino com o Benfica. Este queria um aumento no ordenado e a direcção não quis ir ao seu encontro. A lógica por trás é a mesma de Jonas: se um dos membros mais novos recebe o que recebe, eu também quero algo da mesma ordem de grandeza, porque estou há mais tempo no clube e já mostrei mais serviço.

Esta situação desestabilizou certamente o balneário. Juntando isso à reforma, provavelmente forçada, do capitão Luisão, assumo que os atletas não se sentiam queridos pela direcção, o que os terá desmotivado. O treinador, muito provavelmente, recebeu ordens superiores para afastar Salvio da equipa, cumpriu-as e está a sofrer pelo facto de não ter defendido esse atleta nem, muito provavelmente, o restante plantel. Como os jogadores não se podem vingar da direcção, vingam-se da equipa técnica — de resto, muito à semelhança do que aconteceu com Mourinho esta semana, como eu já tinha adivinhado no artigo da semana passada [1].

Não é plausível que uma equipa cujos jogadores já jogam há vários anos juntos, de repente, deixe de conseguir fazer um jogo decente. Ninguém desaprende desta maneira; existe uma influência externa e a minha teoria é esta: desigualdade.

O Benfica parece que anda a retirar umas ideias do reino da Dinamarca: afasta jogadores indesejados, porque não fazem o que o clube quer, e só falta pô-los, quem sabe, nas Berlengas ou nas Desertas — tal como o governo dinamarquês sugeriu colocar imigrantes indesejados numa ilha isolada, afastados do resto do povo. O governo dinamarquês é suportado por partidos de direita — mas nunca vi algo tão torto!