Por Fábio Morgado


Imitando M. Night Shyamalan, o realizador de filmes célebre pelas reviravoltas imprevistas que introduz nos filmes que realiza, vou tornar este artigo uma trilogia. Ou melhor, este artigo liga os meus dois últimos [1, 2], identificando os seus pontos em comum, e conclui a trilogia. A minha inspiração provém directamente do filme de M. Night Shyamalan de 2016, «Fragmentado» [3], no qual existe uma cena secreta, após o genérico final, que liga o filme a outro mais antigo do mesmo realizador. Foi uma decisão completamente inesperada e, claro está, na esteira do burburinho que se criou à volta deste golpe, foi anunciado o terceiro filme como sendo uma conclusão.

Nos dois últimos artigos que escrevi, fui de opinião que os dias de Mourinho estavam contados no Manchester United [1] — e nessa mesma semana foi despedido — e defendi a teoria de que o Benfica não jogava melhor por ter um plantel infeliz com a forma como os jogadores estavam a ser tratados (especialmente o Salvio) [2] — e, nessa mesma semana, começou a circular a notícia de que a renovação fora acertada e que o jogador em breve recuperaria duma lesão. Imediatamente, o Benfica — perdoem-me a expressão — deu um cheirinho de bola ao Braga, que estava nada mais nada menos que no segundo lugar do campeonato. A verdade é que não tenho uma bola de cristal; se a tivesse, já teria ganho o Euro-Milhões. O que tenho é muito cepticismo em relação a tudo, porque o mundo já não é um lugar em que se possa confiar cegamente seja no que for.

Estes casos das últimas duas semanas denotam um problema muito grave no futebol: quem manda no plantel? Em ambos os casos os treinadores foram boicotados pelos seus próprios soldados. Só lhes faltaram uns cravos presos nas chuteiras e estarmos em Abril, para isto ser uma revolução!

Um bom profissional nunca deve prejudicar um colega intencionalmente. Dentro do campo, existe um árbitro, que mantém a lei e garante que não existem entradas prejudiciais à integridade física dos jogadores, ou que os seus autores são punidos. E no balneário? Pessoas dentro do mesmo grupo de trabalho, com os mesmo objectivos, a tentarem sabotar um colega ou o líder? O treinador, tal como o director do departamento onde o leitor trabalha, está lá para definir a direcção do grupo e cabe ao grupo acompanhá-lo. Há diversos estilos de liderança, uns geradores de maior satisfação do que outros; além disso, os líderes também são humanos e, como tal, podem enganar-se; é preciso não esquecer que há pressões externas inenarráveis; e haverá também alguns incompetentes que não são bem líderes, mas mais chefes. Mas, em qualquer caso, a atitude certa, seja do Pogba ou do Pizzi, não é deixar de dar o seu melhor em campo para prejudicar o treinador; é continuar a dedicar-se à equipa e no fim fazem-se as contas, seja através dum representante, seja duma avaliação, seja doutro método qualquer.

Um jogador que rende muito pouco com um treinador, como foi o caso do Pogba na era Mourinho, a falhar de baliza aberta uma remate fácil, e de repente começa a render o dobro ou o triplo (olhemos novamente para o Pogba, com o treinador interino do United) é para desconfiar. Os adeptos vão dizer que o mérito é do treinador, mas não é. Para as pessoas que têm os olhos abertos, é fácil perceber que o jogador é um mau profissional, uma pessoa mimada e, pior, que sabe que tem o clube na mão. O jogador francês, campeão do mundo, foi um forte investimento do United — para cima de cem milhões de euros. Se for vendido por menos vinte milhões, é um prejuízo enorme e que, provavelmente, iria deixar os adeptos irritados. Portanto, a escolha para manter o jogador e o fazer feliz foi despedir o treinador.

No Benfica, aconteceu quase o mesmo. Não sou o maior fã do Pizzi, apesar de ser bom jogador (o que se vê no carinho que recebe dos adeptos). Porém, pessoalmente, acho que já foi melhor e mesmo que o croata Krovinovic é, neste momento, um jogador com mais qualidade e mais fome de vencer que o português.

Os clubes que evitam mexer nas vedetas parecem ser presididos por hindus, que não podem tocar nas vacas sagradas…