Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Hossein Derakhshan, publicado no «Nieman Lab» [1]


A crise nuclear do jornalismo não tem que ver com modelo de negócio, qualidade, ética ou confiança. O problema é que a notícia está a morrer; está a perder a sua relevância cultural e, portanto, o seu valor.

A notícia é uma invenção cultural, que nasceu num momento específico, para satisfazer necessidades específicas. A invenção do telégrafo permitiu à notícia viajar mais depressa do que a pessoa, alargando o horizonte que se podia conhecer, ao mesmo tempo que a população letrada em expansão desejava trocar a ficção épica tradicional pela descrição da realidade exótica longínqua.

Mas a invenção da televisão por satélite, das viagens internacionais baratas e da internet e das redes sociais retirou o monopólio à notícia como fonte do sentido de globalidade. Ao mesmo tempo, a desilusão das pessoas com a globalização levou-as a voltar a apreciar o local: artesanato, cerveja artesanal, mercados locais e, numa nota menos positiva, nacionalismo. Porém, as notícias locais deixaram ser sobre política municipal e escritas nos jornais e passaram a circular sob a forma de selfies nas redes sociais.

A notícia perdeu também o seu papel como desbloqueador de conversa entre colegas e amigos: foi substituída pela série mais recente do Netflix, pelo vídeo sensação do Youtube e pelo jogo de computador acabado de sair.

O resultado de tudo isto é duplo: um jornalismo de formato curto que passa directamente do produtor ao consumidor (tuítes de políticos, por exemplo); e um jornalismo de formato longo, sob a forma de documentário, livros de não-ficção, podcast, etc. — mas nenhum deles pago.

A verdade é que a notícia está a morrer, mas o jornalismo não — nem pode! A crise do jornalismo é um reflexo da crise da democracia: sem jornalismo, não há democracia.

O desafio que se coloca ao jornalismo é passar a produzir outra que não notícias, sem se deixar seduzir pela propaganda e pelo entretenimento. O jornalismo pós-notícia terá de, provavelmente, passar pela arte: literatura, teatro, cinema, fotografia e até mesmo música e dança.

A inovação no jornalismo não deve restringir-se ao modelo de negócio ou à tecnologia. Deve passar por novas formas culturais e formatos de representação.