Por Gustavo Martins-Coelho


Foi no final de Outubro do ano passado que falei aqui [1] de medicinas pré-científicas pela última vez. Mas o assunto está longe de estar encerrado, pelo que hoje é talvez um bom dia para retomarmos a medicina ayurvédica [2].

Além da dieta [2] e à semelhança da medicina africana, de que já falei em tempos [3, 4, 5, 6], a medicina ayurvédica também dá muita importância às plantas. O uso de plantas medicinais no tratamento de doenças ou simples mal-estar chama-se fitoterapia.

A fitoterapia ayurvédica inclui, por exemplo, a trifala, que é um composto de três plantas rico em polifenóis [7], que são substâncias que existem, por exemplo, no vinho — e é por isso que se diz que beber um copo às refeições faz bem (se bem que, um dia destes, havemos de esmiuçar melhor esse lugar-comum e ver se é mesmo assim). Mas dizia eu: se dizem que o vinho faz bem por causa dos polifenóis, a trifala também deve fazer bem, não é? A questão é que nós não conhecemos a restante composição da trifala e, portanto, é preciso estudá-la melhor, antes de afirmar com toda a segurança que não há inconvenientes no seu uso.

O mesmo se aplica às plantas usadas na saúde masculina (infertilidade, libido, contracepção, doenças de transmissão sexual e tumores dos órgãos genitais), cuja utilidade tem vindo a ser documentada, mas cujo conhecimento é ainda incipiente [8].

Igualmente, uma espécie de caramanchão tropical, abundante na Índia, é usado extensivamente pela medicina ayurvédica para uma série de tratamentos, mas permanece inexplorado do ponto de vista científico, quer em termos dos seus efeitos, quer em termos da sua toxicidade [9]. Portanto, é de esperar antes de usar, até se saber mais.

Já no caso da vidarikanda, ou kudzu, os estudos existentes já demonstraram que, nas situações em que é habitualmente usada, é inútil. Contudo, foram nela identificadas substâncias (isoflavonas) que podem ter outras utilidades reais [10]. Vamos aguardar mais resultados científicos.

Curiosamente, uma planta proscrita na medicina ayurvédica é a cannabis. O seu uso está associado a ritos religiosos, mas os seus efeitos secundários estão bem documentados na cultura ayurvédica, de tal forma que o seu uso com fins terapêuticos é desaconselhado [11]. Ora aqui está uma coisa boa da medicina ayurvédica, que nós devíamos provavelmente seguir! Infelizmente, o nosso parlamento é muito forte na automedicação [12, 13]

Para terminar o capítulo da fitoterapia na medicina ayurvédica, vou referir duas áreas em que há bastante interesse: imunidade e tratamento de pedras nos rins. No primeiro caso, muitas das substâncias usadas na medicina científica têm por base plantas usadas na medicina ayurvédica [14]; no segundo caso, há interesse em investigar de que forma se podem usar substâncias presentes em plantas ayurvédicas no tratamento das pedras que ocasionalmente surgem nos rins [15].

Como é hábito, o espaço final desta crónica é dedicado ao objecto do dia. Para hoje, vamos falar do capacete de protecção. O capacete amarelo é um emblema da segurança no local de trabalho, mas evoluiu a partir de vários modelos usados no início do século XX. Os trabalhadores da construção tinham chapéus feitos de alcatrão endurecido, os mineiros usavam chapéus de couro e os soldados da I Grande Guerra usavam capacetes de metal, que inspiraram uma nova geração de capacetes de tela vaporizada, que começou a ser usada pelos trabalhadores dos estaleiros navais. Foi em 1931 que foi introduzida a obrigatoriedade do uso de capacete na construção da grande barragem Hoover, nos EUA, e mais tarde essa obrigatoriedade generalizou-se. Actualmente, os capacetes são feitos de plástico duro e possuem um sistema de suspensão interno, para aliviar o impacto de qualquer objecto — seja uma ferramenta caída, seja uma placa de madeira.