Por Fábio Morgado


Uma das formas de arte de que mais gosto é a arte de fazer rir. Todos conseguem ter um pouco desse talento, mas só alguns são geniais.

Para surpresa minha, reparei, na semana passada, que o programa «Levanta-te e ri» está de regresso, para uma segunda temporada. Aliás, Portugal está a entrar novamente numa onda de comédia. O programa é do tipo designado «stand up comedy» — basicamente, é um comediante em pé. Não fomos os inventores deste conceito. Tal como o nome anglófono indica, há anos que a stand up comedy acontece, nomeadamente, nos EUA, com pessoas geniais como George Carlin, Dave Chappele e Chris Rock, entre muitos outros que não tenho espaço para mencionar.

O segredo desta arte é pegar em factos reais e hiperbolizá-los. Por exemplo, um dos meus actos preferidos é de Chris Rock, que afirma que Michael Jackson violou uma criança, para distrair a opinião pública, porque o conflito estava a correr mal para os norte-americanos. Aquando da invasão do Iraque, que correu como se sabe, apareceu a notícia que o ícone pop Michael Jackson tinha violado outra criança (as acusações foram muitas, ao longo da sua vida, na verdade). Chris Rock afirmou que fora o governo quem pedira ao cantor para se deixar ser acusado deste crime, a fim de desviar as atenções da guerra no Iraque.

Parece ser uma piada, mas é uma estratégia real. Por exemplo, cá na Madeira, no ano passado, aconteceu, como todos os anos, o Rally Vinho Madeira. É uma altura de festa, em que quase todo o povo madeirense vai para a serra ver os carros acelerar. No ano passado, até foi dada tolerância de ponto durante o evento — e foi quando o povo estava distraído com as corridas que foi anunciado que o governo madeirense conseguira obter mais um empréstimo de 455 milhões de euros.

Não gosto de ser desconfiado, mas, sempre que há um evento de grande dimensão, presto ainda mais atenção ao que se vai passando do que o habitual; e recomendo ao leitor que faça o mesmo.

A noticia do hacker do Benfica é bombástica — ao ponto de todos os canais que vejo só falarem do homem, que deve ser a pessoa mais famosa em Portugal no momento. Espero que o hacker confesse tudo e mais alguma coisa; quero saber quem são os envolvidos, o motivo e, mais importante, que sejam condenados — seja quem for.

Muito se acusou o FC Porto de ter comprado os e-mails. Acredito tenha havido um intermediário para o negócio e não que tenha sido directamente a instituição FCP a comprar. Se realmente tiver sido assim que aconteceu, a pena será sempre substancialmente menor. Assim como o traficante de droga é preso e o consumidor é internado para desintoxicação, sendo tratado como doente, a doença do FC Porto é querer ganhar à força. O Benfica parece padecer da mesma doença, a acreditar nos e-mails; e mesmo o Sporting no caso cashball, não sai bem na fotografia.

Para mim, é triste tentar ganhar assim. Por isso mesmo, aprecio o país estar a voltar a entrar numa onda de comédia, como o «Levanta-te e ri» ou o «Lip Sync Portugal» (em que o conceito é imitar artistas actuais ou de outrora, em especial os seus maneirismos e cantar em playback). O povo precisa de rir, especialmente os adeptos de futebol.