Por Gustavo Martins-Coelho


Como ficou patente na semana passada [1], a medicina ayurvédica baseia-se muito na fitoterapia, ou seja, a utilização de extractos de plantas com fins terapêuticos. O grande desafio da medicina ayurvédica é demonstrar qual a real utilidade desses extractos, à luz do método científico [2, 3, 4]. O grande desafio da medicina científica é incorporar os tratamentos provindos de fontes tradicionais que demonstrem ter real eficácia, em particular em situações onde os tratamentos médicos actualmente disponíveis são pouco eficazes [3, 4, 5, 6].

Enfim, trata-se, no fundo, de pôr todos a falar uns com os outros, o que também é válido para as restantes medicinas pré-científicas. Os seus praticantes têm de compreender duma vez por todas que, se querem ser aceites como profissionais de saúde de pleno direito, têm de aceitar as mesmas regras do jogo — que, no caso, são a demonstração científica como padrão de eficácia e segurança [2, 5]. Mas é preciso também que haja um vocabulário comum. A medicina ayurvédica, bem como a acupunctura e outras medicinas pré-científicas [7], usam frequentemente palavras esotéricas para definir conceitos aos quais a medicina científica também dá um nome (que, às vezes, diga-se em abono da verdade, também soa um pouco esotérico ao não especialista) [8, 9].

O Estado — ou melhor, os Estados, porque não estamos a falar só do Estado Português, também têm um papel a desempenhar, na regulação. O Estado Português tem feito exactamente o contrário do que deveria, nesta matéria, tanto a nível central [10], como a nível local [11]. Mas há pior. O equivalente indiano do nosso ministério da saúde, por exemplo, parece ter entrado no domínio do lysenkoísmo [12]. O lysenkoísmo correu mal na União Soviética e correrá mal em qualquer sítio onde seja aplicado, porque, não importa quão forte seja a ideologia, a realidade é sempre mais forte e acaba sempre por se sobrepor, a bem ou a mal. Portanto, não é impingindo a medicina ayurvédica (ou outra qualquer) por decreto [13, 14] que ela se torna eficaz no tratamento de doenças. O resultado, naturalmente, só pode ser um. No caso da União Soviética, foi a fome; no caso da Índia, é a doença e a morte subsequente.

Então, o que nos diz a ciência sobre a medicina ayurvédica? Sobre fitoterapia, ficámos conversados na semana passada [1]. Mas nem só de plantas vive a ayurveda; há também os óleos medicinais; e uma situação em que são usados é na paralisia facial. Mas os parcos estudos sobre o assunto são insuficientes para demonstrar que servem realmente para alguma coisa, nesses casos [15].

Da mesma forma, os enemas e a massagem ayurvédica também não demonstraram qualquer utilidade na artrite [16].

Dito isto, está na hora do objecto do dia. Na semana passada, falámos do capacete de protecção. Esta semana, continuamos na área do equipamento de protecção individual, falando dos óculos de protecção.

As lesões oculares no local de trabalho são mais frequentes do que se possa pensar, sobretudo nas fábricas. Nos EUA, dizem as estatísticas, ocorrem cerca de duas mil lesões oculares por dia, sendo que quase três quartos destas lesões resultam de objectos que caem ou saltam do sítio. Usar correctamente os óculos de protecção pode mitigar ou evitar noventa por cento destas lesões.

Mas os óculos de protecção não se usam só nas fábricas: também servem para os profissionais de saúde, pessoas que trabalham em laboratórios ou nas limpezas, e profissionais que trabalham com animais, seja na pecuária, seja noutras áreas, os quais correm o risco de contrair doenças através da exposição dos olhos a contaminações de origem animal.