Por Fábio Morgado


Uma das atitudes menos produtivas que uma pessoa pode ter é queixar-se permanentemente — queixar-se de que o trabalho corre mal, de que não gosta de certas coisas, etc. A atitude correcta a ter é criticar uma vez de forma construtiva, permitindo melhorar a coisa de que não gosta, ou mudar de trabalho.

O leitor que acompanha futebol já sabe do que vou falar. Basicamente, os quatro clubes no topo da tabela andam a reclamar do vídeo-árbitro. Quem perde reclama porque foi prejudicado pelo VAR; quem ganha reclama porque já tinha sido prejudicado pela VAR no passado recente. Tudo a choramingar!

Vamos perceber uma coisa: o vídeo-árbitro é um auxiliar, não muito diferente dum aluno a quem é permitido usar uma calculadora num exame de Matemática. Se a pergunta é: «quanto é 2 + 2?» e o aluno pensa que é 5, mesmo que pegue na calculadora para confirmar e obtenha 4 por resultado, é provável que pense que a máquina está errada e mantenha o 5 na folha de exame. A culpa não é propriamente da máquina de calcular; é do utilizador. O mesmo acontece no campo de futebol. O árbitro é que decide se é falta, fora de jogo ou golo — ou nada disso. O problema disto tudo é a ambiguidade que existe em tudo. A vida não é a preto ou branco; às vezes, há uma área cinzenta e isso até pode ser bom. Na saga «Harry Potter», toda gente pensava que o professor Snape era um dos maus da fita, mas, no fim, vem-se a saber que as suas atitudes malvadas tinham por objectivo proteger a personagem principal. Ele trabalhava na tal área cinzenta.

Um árbitro também trabalha numa área cinzenta: pode parecer que está do lado do adversário, mas, na verdade, está a seguir as leis do jogo, ou, pelo menos, a sua interpretação das mesmas. Eu, como benfiquista que sou, achei que o primeiro golo do Porto resultou dum lance que teve início numa falta sobre um jogador do Benfica. Um adepto azul-e-branco vai dizer que foi um lance limpinho. Se fosse ao contrário, provavelmente, o adepto benfiquista diria que foi limpinho.

Agora, vir atacar o VAR em público? Que bem irá isso trazer? As pessoas parece que precisam de caos para sobreviver. Se não estão contentes com o desempenho do VAR em geral, ou duvidam da utilidade acrescida que o mesmo traz ao futebol, a solução é muito simples: os clubes iniciam um processo na Liga ou na Federação e pedem que o VAR seja banido. Se realmente toda gente está descontente, a maioria irá votar a favor duma tal proposta e o assunto fica resolvido. Não é preciso vir para a praça pública criticar o trabalho das outras pessoas; se foram incompetentes ou não, é um assunto que deve ser tratado nos foros apropriados. Isto mais parece a Aldeia da roupa branca, onde toda gente lava a roupa suja em público!

Também acho piada à incoerência. Há uns tempos, o presidente da Luz disse que só os burros falam dos árbitros, mas, nesta semana, foi o primeiro a atacar o responsável pelo VAR durante o Porto-Benfica das meias-finais da Taça da Liga. O Porto, para se defender, veio logo falar das outras vezes em que foram prejudicados, mas não se lembraram de falar de quando foram beneficiados. O Braga já fala como se fosse um grande, mas, como se diz, ainda tem de comer muito milho para lá chegar, e o Sporting é o que menos ataca, mas não deixou passar a oportunidade para dizer que o VAR tem de melhorar o desempenho.

Novamente, o vídeo-árbitro é um auxiliar. A decisão será sempre do árbitro principal. Se há influências externas sobre as decisões do árbitro, já não sei nem mais direi, mas sempre ouvi dizer que é mais fácil apanhar um mentiroso do que um coxo.