Por Fábio Morgado


Com o início do mês de Fevereiro, acaba o que é considerado a silly season de inverno do futebol. Silly season poderia ser traduzido para Português como «a época da tontice»; este termo inglês designa um espaço de tempo, normalmente no verão, onde são publicadas várias notícias sem importância, ou, em bom vernáculo, para encher chouriços.

O futebol não escapa à existência da silly season: as duas épocas de transferências anuais são denominadas de silly season, porque, enquanto duram, todas as notícias relacionadas com o futebol são possíveis e apresentadas ao público. Lembro-me de imensos artigos que os nossos jornais desportivos publicaram em anos anteriores, todos em torno do tema de que certo jogador era dado como certo no Benfica, com análises completas de como encaixaria na equipa — para, no dia seguinte, o mesmo jogador ser apresentado por um rival, nomeadamente o Porto (claro que o reverso também chegou a acontecer).

Num dos artigos que apresentei no ano passado [1], falei dos elevadíssimos valores transacionados através de passes de jogadores. O interessante é que, passado um ano, o paradigma é o oposto. O valor mais alto pago por um jogador foi de 75 milhões de euros, que foi quanto De Jong, estrela do Ajax, custou ao colosso europeu Barcelona. Se compararmos com o ano passado, o mesmo Barcelona pagou 120 milhões por Coutinho, na altura no Liverpool. É uma redução significativa.

Voltando à contratação de De Jong, um facto curioso é que este jogador só se irá juntar ao clube no início da próxima época, pelo que não sei até que ponto deveria ser considerada uma transferência, porque o jogador continua no mesmo sítio.

Das transferências realmente concretizadas, a de maior relevo foi em Itália: o AC Milan contratou o jovem polaco Piatek para a sua frente de ataque, por 35 milhões de euros. Uma pechincha, considerando o jogador que irá ser. De resto, a maior parte das notícias foram relacionadas com empréstimos de jogadores já estabelecidos, como Higuain ou Morata. Ninguém está para gastar fortunas em jogadores, especialmente nesta altura do ano.

No mercado de inverno, o impacto cultural, seja da sociedade ou do futebol, é imenso. Uma mudança de Itália para Inglaterra por exemplo, leva o jogador duma cultura de futebol mais defensivo, para outra mais atacante. Por outro lado, a pressão da comunicação social é muito maior nas terras de Sua Majestade, devido ao maior número de tablóides. A mudança do clima é outro factor: países como Espanha, Itália e Portugal são muito mais quentes do que Alemanha ou Inglaterra. A tendência, no tempo frio, é ficar em casa, no quentinho, mas, para algumas pessoas, isso faz mal psicologicamente e prejudica a adaptação psicológica à nova realidade por parte do atleta.

Poderia enumerar mais impactos, mas penso que o leitor já percebeu onde quero chegar: as barreiras que um jogador enfrenta ao mudar para um novo clube afectam o seu desempenho e, quando estas barreiras são ultrapassadas e o jogador está pronto para dar o seu melhor, está a época a acabar; e, se veio emprestado, é provável que acabe recambiado de volta para o clube de origem. Foram seis meses perdidos na vida do atleta e no próprio clube.

Há cerca de dois anos, um senhor do futebol, o francês Arsene Wenger, argumentou que o mercado de transferências de inverno deveria ser eliminado, porque, para além do que eu disse anteriormente, também impede que um jogador dê o seu melhor no clube em que está, se o primeiro impacto não for positivo.

O mercado de inverno é uma escapatória que prejudica mais o jogador e o clube do que os beneficia.