Por Fábio Morgado


Um dos lugares que mais gosto de visitar é o jardim zoológico. Infelizmente, por razões geográficas, não posso lá ir muitas vezes, mas, quando dou um saltinho a Lisboa, raramente perco a oportunidade para ir ver os animais.

Gosto muito de observar os macacos; são quase iguais a nós, seres humanos. Nunca estudei o darwinismo, mas, pelo que vou vendo, penso que a cadeia de evolução é um facto bastante óbvio. Existem imensos estudos sobre os primatas, mas o que sempre mais me fascinou foi o da dr.ª Dian Fossey, no âmbito do qual ela viveu com a sociedade dos gorilas da montanha. Sem entrar em demasiados detalhes, basicamente, ela foi aceite na sociedade, podia sentar-se junto dos animais, brincar com os jovens, etc. — apesar de ser completamente diferente deles. É uma coisa bonita de se observar; e muita gente deveria aprender com estes animais que nós definimos como irracionais — aprender a ser tolerante e aceitar as outras pessoas como elas são, sejam preto ou branco, gordo ou magro, benfiquista ou portista ou doutro clube qualquer.

Durante um jogo de futebol, as emoções estão ao rubro e com isso eu percebo que nos esqueçamos de tratar o adversário como um ser humano. Não acho que seja uma atitude saudável, muito menos louvável, mas percebo o efeito psicológico em jogo: estamos a apoiar o nosso clube e o adversário é mais do que um adversário: é o inimigo. É um instinto primitivo, de defender o que gostamos como se disso dependesse a nossa vida, que vem ao de cima.

Se isto já é mau, pior é quando isto passa do estádio para fora. Tivemos casos muito recentes, como o do adepto italiano que tinha vindo a Portugal ver o Sporting e acabou morto por adeptos benfiquistas em rixas combinadas. Outra situação foi da claque portista em Matosinhos ter entrado numa loja benfiquista vestidos com as cores do clube — é uma simples provocação, totalmente desnecessária.

Esta semana, queria falar de bola, até porque o Benfica está em maré de cima, mas veio um senhor, de seu apelido Macaco, fazer manchetes de jornais. A história é simples: o líder dos Super-Dragões viu o ex-assessor (ex-!!!) do Benfica durante uma refeição com o filho e um cunhado e decidiu importuná-lo. Este assessor é o mesmo acusado no assunto dos e-mails do caso e-toupeira. Encontravam-se num lugar público, não havia razões para falar de futebol ou assuntos relacionados com o futebol. Foi o fanatismo azul e branco, associado à recusa em aceitar uma pessoa diferente, que o fez reagir de forma incomparavelmente pior à dos gorilas que a dr.ª Dian Fossey estudou.

Para azar deste senhor, que faz figuras que nem são de macaco, foi filmado. Vivemos num mundo de big brother, em que cada um pode ser (é) filmado 24h e nem nota. Este caso foi tão grave, que até os próprios super-Dragões se demarcaram da atitude do seu líder. Ora, se até os fiéis seguidores se tentam afastar da figura que o líder fez, é porque o líder fez mesmo porcaria da grossa…

Na minha experiência de vida, só defendemos alguém, ou alguma instituição, fanaticamente, quando ela ou nos dá algo muito importante para nós, ou quando amamos esse algo ou alguém obsessivamente, ao ponto de nos tornarmos animais agressivos. Uma sociedade não deve nem pode funcionar com base no ódio ao que é diferente.