Por Gustavo Martins-Coelho


Terminada que está a medicina ayurvédica [1], vamos um pouco mais para Oriente, até ao Sudeste asiático. A corrente dominante nessa região é a medicina tradicional chinesa, mas existem outras variantes, como sejam, por exemplo, a medicina Kampo, do Japão, a medicina tradicional coreana, a medicina tradicional mongol e a medicina tradicional tibetana.

Além disso, a medicina tradicional chinesa tem também ligações a outras correntes médicas tradicionais, como, por exemplo, a medicina árabe, de que já aqui [2] falei. Uma dessas ligações é, por exemplo, a ventosaterapia, que é praticada tanto no Médio Oriente, como no Sudeste asiático. A ventosaterapia está muito na moda, ultimamente, mas não tem qualquer utilidade demonstrada [3, 4].

A medicina tradicional chinesa consiste de várias práticas. A mais conhecida é talvez a acupunctura, de que já falei extensamente aqui [5], mas há também, por exemplo, a utilização de preparados de insectos [6], a fitoterapia [7, 8], a massagem tui-ná [9], o tai chi [9, 10], o qi-gong [9, 10], a musicoterapia [9, 10], os suplementos dietéticos chineses [10] e a massagem chinesa [10], além da ventosaterapia, que acabei de referir.

No caso dos preparados de insectos, aplicam-se as mesmas considerações que já teci a respeito da fitoterapia [11]: o principal desafio da medicina científica é isolar compostos que possam ser efectivamente úteis e seguros [6].

Algumas destas técnicas têm sido usadas no cancro [9], nomeadamente do fígado [6, 12, 13], do pulmão [7] e das vias aéreas [14, 15], da próstata [16] e da mama [8], bem como na síndrome do ovário poliquístico [17]; e, curiosamente, parecem ter alguma utilidade, sobretudo como complementos do tratamento padrão e em particular na melhoria da qualidade de vida [8, 16, 19]. É pena que, como já vem sendo costume, os estudos científicos que apontam para essa utilidade sejam de fraca qualidade, precisando de ser confirmados por estudos mais robustos.

Há uma doença dos rins chamada síndrome nefrótica, que não vale a pena estar aqui a esmiuçar o que é, mas para a qual uma planta usada na medicina tradicional chinesa, a videira trovão de deus, parece ser mais eficaz do que o tratamento actualmente recomendado [20].

Por fim, dando continuidade à já longa tradição do objecto do dia, vamos terminar a falar — do bulldozer!

Pode parecer estranho, mas o bulldozer está na origem duma das maiores ameaças actuais à saúde global.

Metade das florestas tropicais existentes no mundo foram destruídas ao longo do último século. Cada dia que passa, cerca de trinta mil hectares de floresta tropical são destruídos no mundo por bulldozers, mas não só: as motosserras, o fogo e até os machados também dão uma ajuda. Entre 2000 e 2010, perdemos anualmente, em média, quase treze milhões de hectares de floresta — o que dá aproximadamente o tamanho da Grécia — por causa da desflorestação e da degradação das florestas.

As florestas são cortadas por várias razões: para vender a madeira, para arrotear o mato, para abrir minas, estradas e outras infraestruturas. Mas não são só as árvores que desaparecem. O ecossistema inteiro começa a desintegrar-se, com graves consequências. As espécies animais perdem os seus habitats. As emissões de carbono aumentam, à medida que a folhagem reduzida absorve menos dióxido de carbono e produz menos oxigénio. Sem árvores e folhas a cobrir o solo natural da floresta, há mais água a escorrer, que pode devastar sistemas agrícolas.

O Brasil e a Indonésia perderam quantidades consideráveis das suas florestas e estão agora entre os países com maiores emissões de gases com efeito de estufa do planeta. Enfrentar as alterações climáticas globais depende em parte de interromper e reverter o dano já causado nestas regiões.