Por Fábio Morgado


O tema mais fácil para hoje abordar seria seguramente o resultado volumoso com que o Benfica derrotou o Nacional. Dez a zero!! Não se via resultado assim tão desnivelado há mais de cinquenta anos!

Outro tema fácil de tratar seriam as camadas jovens do Benfica, que começam a aparecer na equipa principal e — mais importante — a dar cartas.

Mas optei por hoje falar de algo que me preocupa.

Como já disse diversas vezes neste espaço [1], sou da bela ilha da Madeira. Ora, habitando neste arquipélago, para ver o meu clube do coração jogar ao vivo, tenho duas soluções: ou vou a Lisboa, ou tenho de esperar que venham cá defrontar o Nacional ou o Marítimo. Portanto, é do meu maior interesse, enquanto benfiquista, que as equipas regionais façam boas campanhas no campeonato nacional, para se manterem na primeira divisão.

Mas nem é só por ser benfiquista. Além da presença de equipas madeirenses nos campeonatos nacionais me permitir assistir a dois jogos da minha equipa ao vivo, também é verdade que estão a representar a região e, nessa qualidade, merecem o meu apoio e incentivo, além de que o futebol é também uma boa maneira de fazer publicidade ao relevante destino turístico que é a Madeira.

Um jogo de futebol é um evento, seja de grande ou pequena dimensão. Tirando o dérbi madeirense, todos os adversários das equipas da Região Autónoma são de fora. Os adeptos que seguem as equipas forasteiras até à Madeira vêm com intuito de apoiar a sua equipa contra os da casa, naturalmente, mas, antes do jogo começar, têm tempo para visitar a cidade do Funchal, visto que, provavelmente, o hotel onde ficarão alojados fica situado no centro, ou, pelo menos, muito perto do centro da cidade. Ao efectuar esta visita, poderá ficar agradado e curioso para conhecer mais da ilha e, quando voltar à sua terra, seja em Portimão, em Braga ou noutra qualquer localidade do Continente, é possível que queira volta à Madeira e trazer a sua família. O que digo a nível nacional também funciona a nível internacional. Lembro-me, há muitos anos, quando o Nacional era presença assídua na Taça UEFA, agora chamada Liga Europa, da promenade do Lido, que é uma zona extremamente turística, estar cheio de adeptos espanhóis do Atlético de Bilbau. Era um dia de sol, estavam agarrados à cerveja e era pleno Dezembro. Se não fosse este evento desportivo, não teriam vindo visitar a Madeira e tido uma experiência agradável, potenciadora de visitas futuras em férias.

Actualmente, os dois principais clubes insulares estão no fundo da tabela, em 15.º e 16.º lugares, entre dezoito equipas. A situação está negra, porque, além de não terem a qualidade necessária dentro de campo, não têm um líder à altura fora de campo.

No Marítimo, Petit foi contratado a meio da época para salvar o clube da descida de divisão. Petit foi um jogador com muita raça dentro de campo, mas não é o melhor comunicador e, na posição que está, tem de transmitir ideias claras aos seus jogadores. Olhando para o historial dele, é um facto que salvou miraculosamente o Tondela e o Moreirense da descida de divisão em épocas transactas, mas, nas épocas após os milagres, ele acabou sendo despedido.

O Nacional está na mesma situação: tem um treinador que não tem qualidade; foi um grande jogador no Porto e na Selecção, mas falta qualquer coisa. Há muitos anos, ele treinava o Paços de Ferreira, que tinha vindo duma época fenomenal, mas, apesar de ter grandes jogadores à disposição, acumulou sete derrotas em sete jogos. Ficou conhecido entre os internautas portugueses como o 007…

O problema disto tudo é que os presidentes de ambos os clubes não investem em jogadores decentes. Como se diz na gíria, mandam vir contentores de brasileiros, na esperança que acerte um.

No Nacional, até percebo: além de ter um estádio a meio da serra, o que não ajuda a captar adeptos pagantes para assistirem aos jogos, o presidente não se livra da fama na forma como gere o dinheiro.

Agora, o Marítimo!… Há muitos anos que este clube recebe apoios do governo; tinha um dos estádios mais bonitos de Portugal, com uma vista fantástica sobre a baía funchalense, até o presidente Carlos Pereira ter decidido esbanjar milhões num estádio novo que passa grande parte dos jogos nem com meia casa, só enchendo quando os três grandes cá vêm e contra o Nacional — ou seja, quatro jogos garantidos e, com sorte, mais um ou outro jogo das competições secundárias. Talvez, se tivesse investido em jogadores de capacidade e numa equipa técnica melhor, não precisasse de contratar um treinador com fama de salvar equipas da descida e tivesse antes um treinador habituado a ganhar.

Ambos os clubes precisam de líderes novos, com ambição vencedora.