Por Fábio Morgado


Nunca tanto me satisfez dizer que estava errado! Refiro-me ao artigo da semana passada [1], no qual afirmei que o Porto iria ganhar o dérbi. Mas nem em tudo me equivoquei…

O jogo começou antes do apito inicial, com táticas psicológicas pelas mãos dos adeptos. Houve duas tentativas: uma na noite anterior ao jogo, em que foram rebentados petardos e foguetes junto ao hotel onde a comitiva encarnada se encontrava, com o intuito de não deixar os jogadores dormir; e a segunda quando o Benfica se deslocava para o Estádio do Dragão, em que o autocarro encarnado e o carro do presidente foram apedrejados. Esta segunda tentativa é muito mais perigosa, porque pode, literalmente, matar alguém — e para quê? Por causa dum jogo de futebol!? Quem atirasse a pedra fatal, provavelmente não iria receber recompensa alguma e — pior — desgraçaria a sua vida. As pessoas têm de definir prioridades na sua vida; e não acredito que tentar aterrorizar um adversário desportista deva estar no topo das mesmas…

A verdade é que, no jogo propriamente dito, estas tentativas de amedrontamento não afectaram a equipa, especialmente se levarmos em conta que existem vários jogadores com pouca experiência. Este trabalho vem, nada mais, nada menos, do treinador Bruno Lage. Soube como acalmar os ânimos e incentivar a equipa; mantê-la focada no que era importante.

Vi um Benfica que não se encolheu contra o Porto na fortaleza azul e branca. Tirando os minutos iniciais e finais da primeira parte e os últimos quinze minutos do segundo tempo, o Benfica jogou mais, ou seja, dos noventa, foram 25 minutos com o Porto a dominar e os restantes 65 o Benfica. É obra, sim senhor! Bruno Lage, ao contrário de Rui Vitória, pegou numa equipa destroçada e sem autoconfiança, meteu-lhe sangue novo — através dos jogadores da equipa B, para estes correrem pelos velhotes — e está a funcionar. Ferro tem de ser titular, mesmo que Jardel esteja em plena forma física, porque «em equipa que ganha não se mexe» e, desde que o novo treinador tomou conta do lugar, só teve uma derrota — nas meias-finais da Taça da Liga, precisamente contra o Porto — e um empate — contra o Galatasaray, na Liga Europa, que não põe em causa as aspirações dos encarnados nessa competição.

Não quero entrar em euforias, mas há algo de diferente neste treinador. Ao início, eu explicava o seu sucesso porque os jogadores queriam mostrar boa imagem depois da desgraça que foi o início de campeonato sob o comando de Vitória, mas só a vontade de querer mostrar serviço não é suficiente para explicar os resultados. Realmente, existe trabalho do treinador, seja a nível psicológico ou técnico.

Sinto que Bruno Lage irá quebrar muitos enguiços que o Benfica sofreu ao longo de vários anos. Por exemplo, ganhou na Turquia — algo nunca antes conseguido. Os encarnados não alcançavam uma vitória no Porto há cinco anos (desde 2014, quando Lima marcou dois golos). Só espero que Bruno Lage consiga quebrar a maldição de Bella Guttmann e consiga uma vitória europeia, para o tubarão europeu Benfica do tempo do Eusébio voltar.