Por Fábio Morgado


Esta semana, li uma notícia que me indignou: um dos melhores treinadores italianos, Fábio Capello, disse que só havia três génios na história do futebol [1]. O treinador considera que Pelé, Maradona e Messi são os únicos génios do futebol, o que eu considero extremamente ofensivo para todos os outros grandes génios deste desporto. Sou demasiado novo para me lembrar do Pelé a jogar, tenho vaga memória do Maradona no Mundial de 94, nos Estados Unidos, e Messi — obviamente — conheço bem.

Irei começar pelo Messi, porque acaba por ser o mais fácil de se falar. O messias, como é denominado pelos seus fervorosos seguidores, nem sequer é o jogador mais talentoso de sempre do Barcelona: afirmo convictamente que esse louro cabe a Ronaldinho Gaúcho. Este era um jogador que se divertia com a bola nos pés; é a personificação da expressão «show de bola», dita pelos brasileiros. Se virem vídeos do jogador no Youtube, ele fazia o que queria com a bola, brincava com defesas de alto nível como se estivesse a jogar com os amigos na rua. Era cativante e, a nível técnico, ficava milhas acima de Messi. Um dos melhores jogadores de sempre a nível de fintas, foi com ele que o Barcelona entrou nesta onda de conquistas, tanto internas como externas — porque, antes de Ronaldinho Gaúcho, o Barça só tinha uma Liga dos Campeões. Apesar de ser o mais talentoso, não é o melhor do Barcelona, porque, infelizmente, perdeu a ambição de continuar no topo, coisa que Messi, precisamente, tem.

Maradona, muito semelhante a Messi em termos futebolísticos, viu a sua dependência de drogas estragar o seu futebol durante a segunda metade dos anos oitenta. Eu compreendo que, nos anos em que Maradona jogava, não havia tantas capturas videográficas do que ele fazia em campo como há actualmente. Recordo os seus momentos mais famosos: a «mão de Deus», contra a Inglaterra, num jogo a contar para o Campeonato do Mundo, que marcou um golo e enganou toda a gente; e o jogo em que fintou meia equipa e marcou. Hoje em dia, com o vídeo-árbitro, a «mão de Deus» dificilmente passaria; e as técnicas modernas de preparação dos jogos, com recurso a registos vídeo, permitiriam aos jogadores adversários estudar muito melhor as suas fintas, para não se deixarem enganar em campo. A realidade é que o futebol mudou e, por isso, um jogador como Maradona talvez não fosse hoje o génio que era nos anos oitenta.

Por fim, Pelé — o melhor de todos os tempos para muitos, o homem que marcou mais de mil golos. Claro que este número conta treinos e jogos das camadas jovens. Ele é o único jogador a conseguir ganhar o campeonato do mundo por três vezes — em si, já é um feito admirável. Tem recordes que só foram igualados em 2018 por Mbappe, sendo este o segundo adolescente a marcar na final de um Mundial. Mas não acho o Pelé o melhor da sua geração, quanto mais o melhor de sempre! Ele tinha um colega chamado Garrincha, que, para muitos, é considerado o melhor do mundo em matéria de fintas. Este tinha uma característica física distintiva nas pernas: eram tortas para o lado esquerdo e uma delas era mais curta seis centímetros. Os relatos descrevem que parecia um desenho animado mal feito. Ironicamente, esta aparente falha física era o que lhe permitia fintar como ninguém e mudar de direcção sem perder velocidade. Garrincha ajudou muito Pelé a distinguir-se na selecção brasileira e nem sequer tem o reconhecimento que merece por ter conseguido singrar num mundo exigente como o futebol, apesar do que são objectivamente limitações físicas.

Ser génio, seja em que área for, não é apenas o talento; é preciso haver dedicação à arte, destacar-se na área, ser considerado o melhor e talvez mais importante, ser lembrado séculos após a morte, como acontece com os compositores clássicos, como Mozart, ou pintores como Picasso. Ser um génio é mais do que ter talento.