Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Jamelle Bouie, publicado no «The New York Times» [1]


O Memorial Nacional da Cidade de Oklahoma é um espaço onde os visitantes podem reflectir e prestar homenagem às 168 pessoas que morreram no ataque bombista de Abril de 1995, o qual foi levado a cabo por um terrorista supremacista branco, com ligações a uma rede de extremistas com o mesmo pensamento.

Junto a este memorial, há um museu que recorda os eventos do dia, incluindo gravações dos momentos que antecederam o ataque, destroços, entrevistas com os sobreviventes e os rostos das vítimas. Inclui também uma referência ao perpetrador, às suas actividades de preparação do ataque, aos esforços que levaram à sua captura, bem como o seu julgamento e a execução que se seguiu. Mas, no meio de tanto detalhe, pouco espaço é dedicado à sua ideologia, às suas ligações à rede de supremacistas brancos, e à sua ideologia anti-semita, que estiveram na base do seu extremismo e da violência contra o Estado.

Faz sentido que um memorial não queira dar demasiada atenção aos autores do crime. Contudo, é impossível compreender Timothy McVeigh e os seus cúmplices, sem conhecer os objectivos do movimento supremacista branco e o apoio que foi dado por este às actividades de McVeigh.

Compreender o ataque da Cidade de Oklahoma como parte dum movimento com objectivos e uma teoria de acção bem definidos é uma parte importante da missão do museu do memorial. Mas será que essa missão está a ser cumprida? Os visitantes conseguem fazer a ligação entre a violência na Cidade de Oklahoma e o ataque de Charleston em 2015 ou o de Pittsburgh em 2018? McVeigh é uma ameaça isolada, ou um antecedente importante da nossa actualidade racista?

Conseguimos inclusivamente encontrar uma relação com o mais recente ataque na Nova Zelândia, também relacionado com supremacia branca e cujo manifesto referia frequentemente o «genocídio branco» — a ideia de que a imigração de não brancos e as relações inter-raciais constituem uma ameaça genocida às pessoas brancas? O autor do conceito de «genocídio branco» partilha com McVeigh a inspiração nas mesmas leituras, nomeadamente um livro de William Pierce — «The Turner Diaries» [1]. Este livro encontra-se em exposição no memorial, mas não tem o destaque merecido.

Mas não são só os visitantes que não fazem a ligação. O presidente Trump também não e, por isso mesmo, afirmou, na sequência do ataque na Nova Zelândia, que a supremacia branca é um problema menor. O presidente também não pode falar muito, tendo em conta as declarações que fez a propósito de Charlottesville. Aliás, os republicanos em geral têm sido demasiado tolerantes para com a linguagem que legitimiza o preconceito antimuçulmano e coloca as ideias nacionalistas no centro do debate.

Mas não se pode separar a actual onda de actividade supremacista branca do discurso do presidente relativamente aos «invasores» estrangeiros, da retórica antimuçulmana dos comentadores dos meios de comunicação social conservadores e do próprio discurso nacionalista no Congresso. As palavras têm um peso; e este peso torna os seus alvos mais vulneráveis a todas as formas de desumanização, incluindo as que terminam em violência.

Mas este problema não se resume à retórica dum partido. A supremacia branca mostra-se regularmente na sociedade ocidental, porque esta sociedade cresceu de hábitos e pressupostos que ainda perduram. Assim como o Ocidente despreza a vida muçulmana no Médio Oriente, alguns supremacistas desprezam a vida muçulmana no interior dos seus próprios países. Uma nação construída a partir da remoção e do extermínio dos povos nativos inevitavelmente produz ideologias que tratam essas acções como boas e dignas de louvor.

O mesmo é dizer que a luta contra estas forças não é uma luta contra estranhos; antes é uma luta contra as nossas próprias sombras e o pior do nosso legado.