Por Gustavo Martins-Coelho


Diz que o «Prós e contras» desta semana foi sobre medicina convencional vs. medicina alternativa [1].

Não costumo ver o «Prós e contras». Todos os poucos episódios a que assisti consubstanciam o mesmo padrão; penso que, como amostra, já me permitem inferir que os que não vi vão pelo mesmo caminho. E que padrão é esse? Dum lado, pessoas com uma opinião — chamemos-lhe — pró; do outro, pessoas com uma opinião — chamemos-lhe — contra. Não raras vezes, dum lado, especialistas, peritos, eruditos; do outro, gente sem especial qualificação para opinar sobre a matéria em questão; mas ambas as partes tratadas como se fossem iguais. No final do programa, os prós continuam prós e os contras continuam contras. Não é possível encontrar um meio termo, produzir um consenso, ou simplesmente demonstrar a superioridade dos argumentos duma das partes sobre a outra; tudo isto condimentado por uma moderadora pouco moderada na expressão muito pouco imparcial das suas próprias opiniões.

Portanto, o «debate mais alargado da televisão portuguesa», como lhe chama a RTP na desactualizada página dedicada ao programa [2], é uma absoluta perda de tempo para quem, como eu, acredita, não só que da discussão nasce a luz, mas também que a falar é que a gente se entende. Dali, não só não nasce luz, como ninguém se entende!

Mas não vim agora aqui fazer crítica televisiva; vim apresentar uma perspectiva sobre saúde. Se falei do «Prós e contras», foi porque o tema do episódio desta semana foi um que, como saberá o leitor mais atento, me tem ocupado bastante, por estas bandas [3].

Como eu já expliquei abundantemente [4, 5], o episódio começou logo mal no título: «medicina convencional vs. medicina alternativa». Não existem medicinas alternativas. Existe uma medicina demonstrada cientificamente, comprovada e suportada por dados sólidos, e uma medicina não demonstrada, para a qual faltam provas científicas. Se uma prática terapêutica é ocidental ou oriental, se é convencional ou inconvencional, se envolve práticas de mente e corpo ou genética molecular, é totalmente irrelevante, excepto para efeitos de estudo histórico ou interesse cultural.

Como não vi o episódio, não sei o que mais por lá foi dito, mas não me é difícil imaginar: dum lado, os prós a garantirem que as medicinas alternativas fazem maravilhas; e, do outro, os contras, com muito mais estudos, a afirmarem que isso não está demonstrado, bem pelo contrário.

E eu digo, parafraseando o presidente Clinton [6]: é a ciência, estúpidos! A acupunctura e o resto da medicina tradicional chinesa — que inclui preparados de insectos, fitoterapia, massagem tui-ná, tai chi, qi-gong, musicoterapia, suplementos dietéticos chineses e massagem chinesa — permanece por demonstrar cientificamente que sejam úteis [7, 8]! A eficácia da medicina antroposófica também não foi provada cientificamente e a sua segurança pode ser questionável [9]. As curas pela fé, as acções psico-educativas, espirituais, expressivas, artísticas, as terapias com animais e a haptoterapia, que os praticantes da medicina holística propõem, carecem de qualquer suporte científico [10]. A homeopatia e a oncologia integrativa são inúteis e chegam a ser perigosas [11, 12]. A bio-ressonância não passa de banha da cobra [12]. A ventosaterapia, que tem raízes árabes, embora a sua história também passe pela Grécia, não tem utilidade demonstrada [13, 14].

A hortoterapia tem potencial, mas tem de ser melhor estudado o quem, o quando e o como [12]. De igual forma, a medicina tradicional africana, despojada de coisas como a mutilação genital feminina, a mutilação oral, os exorcismos e outras práticas de bradar aos céus, fica com um mundo que vale a pena explorar nas plantas que produzem substâncias com efeitos medicinais [15]. Da medicina ayurvédica, podemos guardar a importância duma dieta variada e rica em vegetais de cores diversas, da redução do consumo de carne e do consumo alimentar, em geral [16]. Podemos ainda estudar melhor e talvez vir a utilizar algumas das plantas da sua farmacopeia, como no caso da medicina tradicional africana [17]. O resto dos tratamentos ayurvédicos é melhor esquecer [18].

Aqui estão os factos. O resto, «Prós e contras» incluídos, é ruído. Os praticantes de medicinas pré-científicas têm de compreender duma vez por todas que, se querem ser aceites como profissionais de saúde de pleno direito, têm de aceitar as mesmas regras do jogo que todos os outros: a demonstração pelo método científico [19] como padrão de eficácia e segurança [18].