Por Fábio Morgado


Desde muito novo, oiço atletas e dirigentes desportivos dizerem que «fácil é chegar ao topo, difícil é manter-se no topo». Esta expressão é muito mais verdadeira nos desportos individuais. Num desporto de equipa, o atleta pode sempre valer-se dos colegas de equipa para cobrir um eventual declínio de forma. No desporto individual, tal como o ténis ou a corrida, por exemplo é muito mais complicado ocultar uma quebra. Por isso mesmo, admiro Roger Federer: é um atleta exímio, considerado por muitos o melhor da história do ténis, que continua a ganhar títulos, apesar dos seus trinta e sete anos, ao contrário do seu grande rival passado — Rafael Nadal, que tem trinta e dois anos — menos cinco. Federer teve cuidado e sorte com as lesões, Nadal não; ao ponto do antigo treinador referir que o espanhol é um «lesionado que joga ténis».

Aplicando o mesmo princípio ao futebol, temos o caso de Messi, que, na minha opinião, se vale actualmente muito de lances de bola parada, o que não era tão comum no início da sua carreira. Deixou-se de correrias loucas, portanto. Já Cristiano Ronaldo, que desde cedo se deixou de malabarismos e de correr sem noção, tem no seu corpo uma máquina perfeita. Muitos artigos foram escritos sobre como, com o passar dos anos, Ronaldo foi perdendo massa corporal, de modo a se conseguir manter rápido.

No caso das equipas, também existem equipas que chegam ao topo e depois desaparecem. Em Portugal, temos o Belenenses, que foi, nos anos da ditadura, uma equipa fortíssima a nível nacional e, nos dias que correm, muitas vezes luta para não descer de divisão — para não falar dos problemas económicos. Em termos de selecções, temos o caso flagrante da Espanha, que, em seis anos, foi duas vezes campeã europeia e uma vez mundial. Nos últimos dois torneios, deixou imenso a desejar; tudo porque perdeu qualidade, seja na gestão da equipa, seja no talento. O que me leva a Portugal…

Portugal teve os dois primeiros jogos da qualificação para o Campeonato Europeu. Como o leitor bem sabe, somos os campeões europeus em título, ou seja, estamos em segundo no ecossistema futebolístico, só abaixo da França, porque esta é a campeã mundial. Uma equipa que está a defender o título europeu não pode enfrentar equipas teoricamente mais fracas com dois médios defensivos. É simplesmente absurdo. Temos uma equipa completa; não são todos do nível do Ronaldo, mas são bons e — melhor — com margem de progressão.

A táctica do nosso selecionador só precisa dum retoque: usar dois médios centro em vez de dois defensivos. Um para ficar praticamente ao ataque, para servir os alas e ponta de lança, e o outro para ser o «box to box», ou seja, para correr de grande área a grande área; que saiba atacar e defender. Esse é o grande problema, porque todos os médios que a selecção costuma convocar são bons ou a defender ou a atacar.

Por isso se tem falado muito em convocar Gabriel, médio do Benfica com dupla nacionalidade brasileira e portuguesa. Sou contra. Em primeiro lugar, não o acho um jogador de qualidade internacional; em segundo, ter um papelinho que lhe dá a nacionalidade não quer dizer que seja português. Desde logo, tem sotaque brasileiro; depois, não tem as vivências portuguesas, não tem a nossa cultura enraizada na sua identidade. Provavelmente, prefere uma picanha a um rabo de porco. Sempre fui contra estas situações, como Deco, Liedson e Pepe. Deram muito? Sim, deram. Sentiram na alma as derrotas e as vitórias? Penso que só o Pepe, porque o acho muito emocional.

Para nos mantermos no topo e defendermos o nosso estatuto, não é jogando à defesa. É indo para cima deles, como D. Afonso Henriques foi para cima da sua própria mãe para obter a nossa independência e para cima dos Mouros para começar a formar o que é hoje o nosso país. Se nos encolhermos, nunca poderemos ser grandes.