Por Gustavo Martins-Coelho


Eu ia falar da greve dos motoristas de matérias perigosas, mas desisti, tal é a estupidez que grassa por aí nas reacções ao problema.

Começa logo pelos comentários no Facebook:

«São seis da tarde e a culpa ainda não é do Cavaco?» [1].

Por acaso, até é. Por que é que as matérias perigosas são, como de resto a esmagadora maioria de todas as mercadorias, transportadas por meios rodoviários e não ferroviários [2], com todas as vantagens que isso traria? Entre outras razões, porque Cavaco Silva eliminou 542 km de caminhos-de-ferro durante o tempo em que foi primeiro-ministro [3]

E por que está o aeroporto de Lisboa em risco de ruptura do combustível armazenado? Porque o aeroporto de Lisboa deixou de ser abastecido por oleoduto por causa da Expo 98 e a alternativa foi inviabilizada pelo governo da altura, de que era primeiro-ministro Cavaco Silva, tendo ficado, desde aí, dependente de viagens diárias de camiões cisterna ao longo dos quarenta quilómetros que o separam do reservatório.

Portanto, sim, a culpa também é de Cavaco.

«Ter toda a Esquerda no poder não deveria garantir a inexistência de greves?» [4].

Não. A greve é um instrumento de luta ao serviço dos que se encontram insatisfeitos com o estado de coisas. Tendo em conta que, de acordo com a sondagem recentemente publicada pelo Observador [5], a esquerda reúne 52,5% das intenções de voto nas legislativas e a direita 37%, é perfeitamente legítimo que esses 37% façam greve, visto que não estão satisfeitos com o estado de coisas; e é até mesmo de esperar que alguns (muitos) dos 52,5% que votariam na esquerda também o façam: apesar de acharem que a esquerda é a melhor opção para governar, isso não significa que acreditem que vivemos no melhor dos mundos possíveis e que não haja razões para descontentamento, ou para almejar melhor. Aliás, há um mar de diferença entre as greves contra cortes nos direitos já existentes a que assistimos nos anos de má memória e as greves por mais e melhores direitos que têm ocorrido ultimamente…

Além disso, para quem não saiba, esta greve é privada: dos trabalhadores contra os patrões. Não é uma greve da função pública, nem o governo é tido nem achado, para além do facto de poder e dever actuar enquanto mediador e ter de gerir um país que pode paralisar por falta de combustíveis.


Aos comentários no Facebook, junta-se a estupidez da malta. Então, estamos em risco de ficar sem combustíveis nos postos de abastecimento e a solução para isso é aumentar o consumo dos mesmos, correndo para o posto mais próximo e acelerando com isso o processo de depleção!?… Pessoas que, provavelmente, não abasteceriam novamente até a greve já estar ultrapassada, atestaram os depósitos ontem e hoje. Pessoas que, provavelmente, teriam limitado o abastecimento a dez ou vinte euros, encheram bem até cima [6]… É bom saber que, ao mínimo sinal de perturbação da confortável normalidade em que vivemos, entramos automaticamente em modo «salve-se quem puder»!…


Entretanto, Pedro Fernandes (um famoso que eu, se não tivesse visto a fotografia, não saberia quem é) cometeu o erro de dizer que, para ele, não havia filas no posto de combustíveis, porque anda de carro eléctrico, e foi imediatamente arrasado por pessoas que acharam que ele estava a amesquinhar os pobres, que não têm dinheiro para carros eléctricos [7].

Os pobres, se fizessem contas, veriam que Pedro Fernandes não disse uma coisa do outro mundo. Segundo o estudo do «Eco» sobre carros com motores eléctricos e de combustão interna [8], um carro eléctrico, apesar de ser mais caro inicialmente, paga a diferença relativamente ao diesel em dez anos, sem contar com o valor de retoma. Quem troca de carro mais frequentemente do que isso não pode, propriamente, ser considerado pobre (se tivermos em conta que a idade média do parque automóvel nacional é de doze a treze anos) e, portanto, não entra na equação.

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Mas, além disso, os pobres — pelo menos os pobres das duas maiores cidades do país — têm, em alternativa, os passes a trinta ou quarenta euros, consoante a zona onde vivam, que o governo introduziu este mês. Usem-nos.

Da minha janela, não vejo falta de combustível…


No meio disto tudo, alguém quer saber quais as reivindicações dos grevistas e se são ou não legítimas?