Por Gustavo Martins-Coelho


Estava aqui a pensar com os meus botões que, para variar, podia falar do objecto do dia primeiro; e, portanto, aqui vai.

Para hoje, reservei os canos de chumbo. O chumbo foi usado para construir sistemas de abastecimento de água porque era fácil de moldar da forma necessária a fazer tubos. Apesar de, desde o final do século XIX, já ser sabido que os canos de chumbo podiam causar envenenamento por chumbo, ainda na década de oitenta do século XX se instalavam canalizações de chumbo… É importantíssimo que se substituam todas essas canalizações, para garantir a segurança da água que bebemos.

Dito isto, vamos falar mais um pouco de medicina tradicional chinesa e outras variantes provenientes da mesma área geográfica.

Comecemos pela aterosclerose. Há vários preparados provenientes de plantas medicinais que são usados pela medicina tradicional chinesa, mas não há praticamente estudos que confirmem a sua utilidade clínica [1].

O mesmo é verdade para a doença de Alzheimer: o conhecimento das possíveis aplicações clínicas duma série de plantas medicinais chinesas, incluindo o famoso Gingko biloba, encontra-se numa fase muito incipiente [2]. Parece que algumas plantas medicinais chinesas (não necessariamente o Gingko biloba) podem ser usadas como adjuvantes do tratamento recomendado, mas não em sua substituição [3, 4]. Além disso, de qualquer forma, a questão mantém-se sempre: é preciso isolar os compostos efectivamente activos, até por uma questão de evitar efeitos adversos [3, 5]. E depois, claro, apesar de não ser impeditivo do seu uso, convém perceber como funcionam [6].

Outra doença neurodegenerativa relativamente frequente é a doença de Parkinson. Para esta doença, foram identificadas dez plantas medicinais utilizadas na medicina tradicional coreana, que poderão ter, após mais estudos, aplicação clínica [7].

Falando agora de depressão, também há plantas medicinais chinesas que têm, aparentemente, efeito antidepressivo [8]. A questão, mais uma vez, é conseguir identificar precisamente qual a magnitude do efeito, se é mais rápido e mais intenso do que o efeito da medicação actualmente recomendada e qual o princípio activo que pode ser isolado e administrado de modo controlado, sob a forma de medicamento [9, 10].

O mesmo é verdade para a osteoporose: embora os estudos existentes sejam promissores, é preciso estudar melhor o papel das plantas medicinais chinesas no combate a esta doença, até porque muitos dos estudos foram feitos em animais e não em seres humanos [11, 12, 13].

Relativamente aos efeitos da menopausa, há uma planta chinesa, chamada gua sha, que parece ter efeito positivo no alívio dos sintomas. São contudo precisos mais estudos para verificar se esses achados são realmente verdadeiros, porque, como de costume, a qualidade dos estudos existentes não é das melhores [14].

As plantas medicinais chinesas também são usadas na prevenção e no tratamento da diabetes mellitus de tipo 2; e também aí o problema é o do costume: os estudos que apontam para a sua eficácia são de má qualidade [15].

Mas nem só de plantas medicinais vive a medicina tradicional chinesa. Como eu já referi em crónicas anteriores [16], a medicina tradicional chinesa inclui, por exemplo, o tai chi; e os estudos existentes indicam que este é útil como medida de alteração do estilo de vida no controlo da diabetes mellitus de tipo 2 [17]. A questão que se coloca, então, é se o tai chi é a melhor estratégia, ou se há outras estratégias, nomeadamente o exercício físico, que sejam preferíveis.

Na inflamação da bexiga, há relatos de que a medicina tradicional chinesa pode ajudar a melhorar os sintomas [18]. Mas relatos, cientificamente falando, são nada…

Por hoje, termino com uma referência às raízes de salva, que alguns estudos têm apontado como sendo úteis no tratamento da angina de peito [19]. Vamos ver se daí sai algum medicamento novo.