Por Gustavo Martins-Coelho


Como sou funcionário público, tenho ADSE [1]. Quer dizer, tenho a possibilidade de ter ADSE e aproveitei-a. Contrariamente ao mito, nem todos os funcionários públicos têm ADSE, porque a participação é voluntária, e nem um tostão dos impostos dos restantes portugueses sai para pagar a ADSE, porque os descontos dos beneficiários sustentam todas as despesas e ainda sobra dinheiro [2].

Mesmo que a ADSE fosse sustentada pelo Orçamento do Estado, isso não me pareceria errado. Mas, como não é o caso, nem sequer vale a pena termos essa conversa. Os demagogos opositores da ADSE é que terão de procurar outros argumentos para sustentarem a sua posição, de preferência verdadeiros.

Adiante! Como tenho um cartão de cliente do Continente [3], também sou beneficiário do Plano de Saúde Well’s [4]. Nunca usei, mas parece que uma pessoa, com esse plano de saúde, depois de ir ao médico, pode comprar batatas fritas no Continente com desconto em cartão…

Quase que tenho também um plano de saúde gratuito do Automóvel Clube de Portugal [5]. Como o meu pai é sócio do ACP, ele é beneficiário do plano de saúde por eles oferecido, o qual é extensível aos filhos — desde que sejam menores! Quase!…

Provavelmente, ainda estou a esquecer-me dum seguro qualquer, de que devo ser beneficiário, por força de ser cliente doutra coisa qualquer…

Já para não falar de que posso fazer um seguro de saúde a partir de pouco mais de dez euros por mês…

Moral da história: dificilmente se pode dizer que precise do Serviço Nacional de Saúde [6]. No entanto, sou cliente — por duas razões!

A primeira é que acredito no SNS. Sem SNS (e sem escola pública e mais uma data de coisas de que a direita não gosta, mas a vida é mesmo assim) — dizia eu: sem SNS, não haveria verdadeira liberdade. Uma pessoa doente, incapacitada para o trabalho, não é realmente livre, por muito mercado livre que tenha à sua volta, pelo simples facto de que não pode participar na economia. O SNS, ao garantir a todos, sem excepção, tratamentos que, doutra forma, estariam além do alcance das bolsas, nalguns casos, até dos mais ricos, proporciona essa liberdade individual de participar activamente na economia e na sociedade em geral. E eu, como acredito no SNS, uso o SNS quando estou doente, porque, ao contrário de alguns, cujas acções diferem das palavras, tenho por hábito procurar a coerência entre o que digo e o que faço. O SNS é uma maravilha de Portugal e eu uso-o, porque acredito nele.

A segunda razão por que uso o SNS é porque trabalho nele. Um dos grandes obstáculos à qualidade dos serviços públicos, na minha opinião, é que quem tem poder para os mudar, porque trabalha para eles ou porque os gere (e aqui não há propriamente distinções, porque não há um grupo de profissionais bondosos dum lado e de gestores malfeitores do outro; há de tudo em todo o lado) — quem está do lado de cá do SNS, dizia eu, raramente se vê do lado de lá. A ministra da saúde, se for a um hospital público, como doente, terá certamente direito a tratamento especial (mas o mais provável é ir a um hospital privado); e todos os administradores abaixo dela a mesma coisa; e mesmo os médicos e os enfermeiros e todos os outros profissionais de saúde beneficiam de tratamento especial, por fazerem parte da equipa. Não quero entrar em grande discussão sobre se está bem ou se está mal que assim seja; não é esse o meu foco hoje. Digamos que está, provavelmente, na natureza humana — e nem tudo o que faz parte da natureza humana é bom.

O que eu quero chamar a atenção é para o facto de que esse tratamento especial que é dado aos da casa os impede de perceber como o sistema funciona na realidade. Os números ajudam, é certo, mas não são tudo na vida. E eu, portanto, que trabalho quantitativamente no SNS, aproveito quando estou doente para ganhar uma perspectiva qualitativa sobre esse mesmo SNS. Provavelmente, devia ser pago por isso, agora que penso no assunto…

Bem, antes de terminar, quero só deixar claro que, quando antes disse que era cliente do SNS, se tratava duma brincadeira. A ironia, hoje, em dia, tem de ser dada em doses pequenas e bem rotuladas; caso contrário, as ignaras virgens ofendidas caem-nos em cima em menos dum fósforo!…