Por Gustavo Martins-Coelho


Não foi por acaso que perorei, na última semana, sobre os motivos por que prefiro dar uso ao Serviço Nacional de Saúde, quando estou doente, apesar de ter alternativas [1]. Queria abrir caminho a relatar, hoje, a minha mais recente experiência enquanto utente do SNS.

Tive um problema ocular: um terçolho. O termo técnico é calázio e consiste numa inflamação das glândulas que contribuem para manter o olho húmido, inflamação essa que é devida à obstrução dos pequenos canais por onde as tais glândulas drenam as suas secreções para o olho. Como os canais ficam obstruídos, as secreções não saem, acumulam-se e formam um papo no interior da pálpebra, que pode ser bastante doloroso.

Às vezes, há um processo infeccioso envolvido e, nesse caso, chamamos hordéolo. Mas voltemos ao meu calázio. Com relativa frequência, a situação resolve-se espontaneamente, ao fim dalgumas semanas e, quando isso não acontece, o tratamento é relativamente simples, começando com umas simples compressas de água quente sobre a pálpebra e anti-inflamatórios tópicos (sob a forma de colírio ou pomada). Nos casos raros que não resolvem espontaneamente e em que esse simples tratamento é ineficaz, é preciso drenar cirurgicamente. Por azar, foi o que me aconteceu e foi por isso que fui ao SNS.

Entre o pedido da consulta de Oftalmologia, feito pela minha médica de família, e a consulta acontecer, passaram sete meses; e, entre essa consulta, em que me foi proposta a realização da pequena cirurgia, e a cirurgia propriamente dita, passaram mais quatro meses e meio. Se contarmos com (para aí) umas duas semanas de espera pela consulta com a médica de família, temos um ano inteiro passado com um olho inchado — ou mais, porque eu esperei que passasse, antes de procurar marcar uma consulta no centro de saúde.

É muito, mas é assim que funciona o SNS. As listas de espera podem ser maiores ou menores, mas são inevitáveis. Porquê? Faz parte da arquitectura do sistema. O SNS é, por definição, por opção política e por imposição constitucional, gratuito (ou muito perto disso) no momento da utilização. Não quer dizer que não se pague: todos nós pagamos o SNS, através dos nossos impostos. Só que pagamo-lo antes de o usarmos e pagamos um valor igual para todos, embora proporcional aos rendimentos, independentemente do uso que dele viermos a fazer. Neste sentido, o SNS funciona de forma não muito diferente dum seguro de saúde [2].

Portanto, dizia eu que nós pagamos os cuidados de saúde, mas não no momento em que os usamos. Então, de certa forma, a barreira do preço é removida no acesso aos cuidados de saúde. O problema é que, quando não se paga em dinheiro, paga-se em tempo. Um bom exemplo disso é a loucura que se vê na black friday, que leva as pessoas a fazerem fila à porta das lojas, antes destas abrirem, na ânsia de adquirirem coisas de que não precisam a metade do dobro do preço que elas habitualmente custam. Esses clientes, para pouparem dinheiro, gastam tempo. No SNS, passa-se a mesma coisa: não se paga em dinheiro (quando se usa), mas paga-se em tempo.

A questão é, então, qual é o tempo de espera razoável. A resposta depende muito e, frequentemente, não é bem compreendida. Prova disso é o recurso excessivo aos serviços de urgência por causa de problemas que não são urgentes. Foi para resolver isso que se inventou a triagem no serviço de urgência [3]. É igualmente por isso que há um sistema de triagem, também, nas consultas hospitalares, embora menos estruturado.

Muitas vezes, de facto, o doente vai vivendo com a sua doença, até ao dia em que o nível de sofrimento que esta lhe causa se torna insuportável e é nesse dia que o doente decide resolver o assunto — e tem de ser já! Ora, não pode ser. É importante compreendermos isso, para não termos expectativas irrealistas em relação ao SNS. O SNS só trata imediatamente o que não pode esperar.

Agora, daí a andar um ano com um olho inchado vai uma grande distância…