Por Gustavo Martins-Coelho


Como descrevi na semana passada [1], a minha experiência no Serviço Nacional de Saúde começou por um ano à espera de resolver um terçolho.

Mas, enfim, chegou o dia da cirurgia. Antes, porém, uma nota para falar de consentimento informado.

Pressupõe-se que, quando um doente vai ao médico, vai na expectativa de receber um tratamento para a doença que o aflige. Mas essa expectativa não é, por si só, um assentimento tácito a tudo o que o médico receitar. Eu posso entrar no consultório a achar que a coisa passa com uns comprimidos e vir o médico dizer-me que, afinal, vou precisar de ser operado; e eu tenho direito a dizer que não: às tantas, prefiro a minha dor à dor pós-operatória… Ou pode haver — e há, frequentemente — mais do que uma alternativa de tratamento; e o médico tem a obrigação de mas apresentar e explicar os prós e os contras de cada uma, para eu decidir qual vou preferir.

O papel do consentimento informado é o de garantir que o médico fez isso, que lhe competia, que eu percebi o que ele me disse e que aceito o tratamento que ele me quer propor. O consentimento não tem de ser necessariamente escrito, mas, no caso das intervenções cirúrgicas (e não só), tem.

O problema é que, não raras vezes, o médico encara o consentimento informado — ou melhor, a assinatura do formulário — como uma mera formalidade, estendendo um papel para as mãos do doente, enquanto lhe diz:

— Agora, assine aqui.

Foi o que me fizeram, na preparação da pequena intervenção ao meu olho. Eu assinei, porque estava à vontade com o procedimento, os riscos e os benefícios associados. Mas só estava à vontade, porque sou médico. Em termos de informação, pouca ou nenhuma me foi prestada, de viva voz, pela médica que me atendeu (e que não sabia sermos colegas de profissão, pelo que posso ajuizar que será aquele o padrão de acção com todos os doentes). Muito menos me foi dada a «oportunidade de fazer todas as perguntas sobre o assunto» [2]: o ritmo da consulta não permite uma verdadeira interacção entre médico e doente para além da colheita da informação clínica essencial, do exame físico dirigido ao problema e do registo no obsoleto sistema informático [3] de que a maioria dos estabelecimentos do SNS estão dotados. E é discutível se os dez ou quinze minutos da consulta são «tempo suficiente para refletir sobre [a] proposta» de tratamento [2].

Chegámos, então, ao dia da cirurgia. Mas chegámos também ao momento de falar do objecto do dia, pelo que deixaremos a narração de como as coisas correram para a semana que vem e nos debruçaremos agora momentaneamente sobre o ar condicionado e o seu papel na saúde.

Ao longo dos últimos cinquenta anos, a probabilidade de se morrer num dia extremamente quente, nos EUA, que são quem sempre tem este tipo de dados estatísticos à mão de semear, reduziu-se em 75%. A razão para essa redução tem muito que ver com a instalação de equipamentos de ar condicionado nos domicílios. Em 1965, apenas 10% das casas norte-americanas tinha ar condicionado; em 2009, eram 87%. O que começara como uma novidade nas salas de cinema estava subitamente em todo o lado: das lojas, aos autocarros, aos escritórios. O ar condicionado não só reduz as complicações de saúde associadas ao calor [4], mas também alivia os sintomas de asma e alergia, porque filtra o ar interior.

O uso de ar condicionado está associado ao rendimento, pelo que é provável que aumente no futuro, sobretudo nos países em desenvolvimento. Mas o arrefecimento tem um preço: prejudica sem dúvida o ambiente. A refrigeração e o ar condicionado causam cerca de dez por cento das emissões globais de dióxido de carbono — três vezes mais do que a aviação e o transporte de mercadorias combinados. Isto porque o ar condicionado requer energia para funcionar, que provém frequentemente de combustíveis fósseis; e porque pode libertar hidrofluorocarbonetos, que constituem o gás refrigerante e têm dois problemas: têm um potente efeito de estufa, acelerando as alterações climáticas, e destroem a camada do ozono.