Por Fábio Morgado


Chegou ao fim mais uma época desportiva — uma época que tenho de admitir que foi o mesmo de sempre: muitas reclamações sobre a arbitragem e acusações de parte a parte.

Estou como Fábio Coentrão: o futebol português enoja. No caso do jogador, percebo porque se sentiu prejudicado contra o Benfica; no meu caso, é mesmo o mau ambiente. O Benfica ganha, o director de comunicação do F.C. Porto vem dizer que os encarnados foram favorecidos. O Benfica responde que tiveram mérito. Pelo amor da santa, eu sou benfiquista e até eu acho que o Benfica, contra o Braga, foi favorecido! Não nos vamos armar em puritanos!

Percebo que as pessoas em Portugal têm a memória curta e muitos adeptos aplicam ao futebol a máxima de que ou comem todos ou há moralidade. No caso, se o meu adversário ganha roubando o meu clube também pode ganhar roubando. Para mim, isso é uma vitória sem mérito e, por isso, admito que não festejei de forma particularmente efusiva este campeonato.

Não vou dizer que o Benfica ganhou este campeonato sem mérito, porque a verdade é que não perdeu qualquer jogo contra o segundo, o terceiro e o quarto classificados; aliás, só empatou um e foi contra o Sporting, na primeira volta do campeonato, na era Rui Vitória [1], e todos os restantes resultados foram vitórias. Mas vou dizer mais: o F.C. Porto ofereceu o campeonato ao Benfica.

Aconteceu um efeito muito engraçado na Europa do futebol, este ano. Se, na Liga dos Campeões, este foi o ano das remontadas [2], nas ligas europeias foi o ano de oferecer campeonatos. Equipas que tinham lideranças confortáveis deixaram-se adormecer e foram ultrapassadas pelos rivais. Em Janeiro, o F.C. Porto tinha sete pontos de vantagem sobre o Benfica. O Liverpool, na mesma altura, tinha dez pontos de vantagem sobre o segundo classificado, que nem era o Manchester City — este andava pelo quarto lugar e, desde essa altura, teve quinze vitórias consecutivas na liga mais difícil do mundo, acabando com 98 pontos — mais um do que o Liverpool. Na Alemanha, o B. Dortmund chegou a ter oito pontos de vantagem sobre um Bayern Munique muito atípico e foi perdendo essa vantagem, até que, no confronto directo, perdeu o jogo contra o dito Bayern.

O que me traz de volta ao nosso campeonato. Foi o F.C. Porto que ofereceu o campeonato ao Benfica, porque possivelmente decidiu concentrar-se na Liga dos Campeões, ou algo do género, e permitiu empates fora de casa com o Vitória de Guimarães e o Tondela. Entretanto, um Benfica extremamente motivado, que estava novamente a praticar bom futebol, que sentia o apoio dos adeptos, ao ter a oportunidade de jogar contra o F.C. Porto com o primeiro lugar do campeonato em jogo, aproveitou-a e ganhou no Dragão — que historicamente é um lugar de muitos desgostos para os encarnados. Neste caso, o Benfica teve mérito.

Como teve mérito e alguma sorte nas jornadas seguintes, que lhe permitiram manter o primeiro lugar. Mas, se o F.C. Porto tivesse feito a sua parte competentemente, mesmo com os penáltis a favorecer o Benfica, o F.C. Porto teria sido campeão.

O que acho irónico é que um clube tão forte psicologicamente, tenha afinal um escape tão fraco, ao culpar os árbitros em vez de assumir publicamente que podia ter feito mais durante a época — ou até mesmo dizer que perdeu o título no Dragão, a sua fortaleza.

Uma das coisas que me deixou desgostoso com os festejos do Benfica foi o presidente, no balneário, a discursar e a afirmar que tomou as decisões certas, que levaram à vitória. Senhor presidente, não se faça de campeão, porque a verdade foi que você desistiu do campeonato a meio. Não despediu Rui Vitoria quando era preciso, porque viu uma luz; falava de jogadores que haviam sido lançados por Jorge Jesus como se tivesse sido Rui Vitória a descobri-los; não conseguia dizer coisa com coisa e só quando os jogadores do Benfica deram um sinal claro de descontentamento, com dois auto-golos contra o Portimonense que levaram à derrota encarnada, é que se viu mesmo obrigado a despedir o treinador [3]. Como, nessa altura, não tinha hipótese de contratar Jorge Jesus ou outro do mesmo calibre, viu-se obrigado a remediar com Bruno Lage, que se mostrou até ao momento um treinador de elite.

O verdadeiro teste para este senhor está na próxima época, porque nesta pegou num grupo de orgulho ferido, que queria mostrar o seu real valor. Estou interessado em ver como será a próxima época, em condições normais.

Falando em condições normais, se não acontecer outro atentado em Alcochete [4], em Agosto a coluna Ler a Bola [5] estará de volta, sempre com um olhar atento sobre o panorama futebolístico nacional e internacional.

Para já, ficamos por aqui. Quero deixar um agradecimento aos leitores que me acompanham e ao meu editor, Gustavo, por tudo o que ele faz por este espaço.

Muito obrigado a todos!